Aficionado por lajes

Bodyboarder Eric Poseidon investe nas bancadas mais sinistras do Rio de Janeiro.

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De uns anos pra cá, a busca por lajes (slabs) no litoral brasileiro virou uma febre entre surfistas e bodyboarders destemidos. Eric Poseidon é um deles. Presente nos maiores swells de 2017 nas lajes do Rio de Janeiro, o bodyboarder é um aficionado por tubos e pela exploração de novos picos.

Na entrevista abaixo, publicada pelo site Pampa Barrels, Eric fala sobre as investidas nas lajes, os acidentes de percurso, além de apresentar uma sessão insana na Laje do Gardenal, no vídeo produzido pela cinegrafista e também bodyboarder Yana Vaz.

Desde quando começou a investir nos slabs?

Então, eu surfo há mais de 24 anos de bodyboarding, e essa parada com os slabs começou depois de uma trip que fiz para o Chile, em 2013, onde tive a oportunidade de surfar em Arica, um fundo de pedra alucinante. Lá, senti muito mais a pressão de uma onda perfeita e tubular, sendo que em cima de pedras, mariscos e cracas, onde a dificuldade é extrema e os erros não são permitidos. Seguindo a viagem, fui para outra parte do Chile, em Iquique, onde surfei um slab fantástico, chamado “La Intendencia”. Depois dessa trip, priorizei – nos últimos quatro anos – o surfe em slabs com fundo de pedra, por exigirem uma alta performance e dose de adrenalina diferentes do surfe em um beach break comum, e realmente fazer com que o surfe evolua muito mais.

Eric Poseidon escondido nos tubos do Rio de Janeiro.

Surfar ondas com potencial internacional, em casa, sempre foi um sonho para qualquer bodyboarder ou surfista brasileiro. Qual é a sensação de realizar, constantemente, este sonho?

Como falei, depois de voltar do Chile procurei as lajes do Rio de Janeiro que poderiam parecer com o que vivenciei no exterior. E para minha alegria, o que vi e vivi não foi diferente! Shorebreak de Copacabana, Dramin, Angra dos Reis e também o (cartão-postal) conhecido como Gardenal não deixaram a desejar em nada! Todas as vezes que chega algum swell, a emoção toma conta da galera, já esperando as melhores ondas. É realmente um sonho termos ondas com todo este potencial aqui no Brasil.

E o seu acidente no “Shore”? Fiquei sabendo que passou perrengue. Como foi essa experiência sinistra?

Bodyboarder após o perrengue no Shorebreak.

Sabemos que acidentes podem acontecer a qualquer segundo no surfe. Por isso não podemos errar, pois pode ser fatal. Em 2017, tive um acidente bem sinistro no Shorebreak, quando fui arremessado de cara nos mariscos.

Cortei o queixo, levando 13 pontos e alguns arranhões na lateral do rosto. Graças a Deus não apaguei, e estava bem lúcido e consciente de tudo que estava acontecendo! Logo após o acidente, saímos remando para o Posto 6 em Copacabana, onde fui para o carro com o David Barbosa e o Marcello Farias – amigos que estavam lá surfando comigo, e fomos para Gávea, onde fui atendido na emergência do Hospital Miguel Couto.

Já no hospital, fui levado para a ala cirúrgica, porém, o corte no queixo era bem profundo, e o cirurgião de plantão me transferiu para a ala Buco Maxilo, onde, enfim, fui atendido. Por uma feliz ironia do destino, o doutor era surfista e já tinha viajado para Indonésia, e me falou da experiência de surfar em corais, inclusive do risco que tudo isso representa tudo isso.

E como foi esse papo com o Doutor?

Contei pra ele como foi o acidente e como funciona a onda do Shore. Por ser uma bancada tão rasa, ele me falou que, se eu quisesse sobreviver e surfar lá mais vezes teria que comprar um capacete, para não acabar perdendo a vida numa onda tão perigosa e bancada rasa! Agradeci a ele, e segui o conselho.

Depois do acidente, minha família, namorada e amigos ficaram muito preocupados comigo. Entretanto, dali por diante, falei pra mim mesmo que não seria por causa daquele acidente que eu pararia de surfar lá. Comprei o capacete e decidi que iria aprender mais sobre aquele slab. Ou seja, foquei em dominar aquela onda especial, e durante o ano passado, em qualquer swell que apresentasse condições, íamos com tudo! Hoje, o foco é surfar lá nos maiores dias que rolarem ondulações propícias!

As lajes com fundo de pedra são a grande paixão de Poseidon.

Sabemos que, infelizmente, o bodyboard não é um esporte tão valorizado no Brasil. Na sua opinião, o que falta para termos um número maior de profissionais bem valorizados e circuitos estruturados?

O fato é que os circuitos brasileiro e vários estaduais acabaram por falta de organização por parte de muitas pessoas que só pensaram em ganhar grana com o bodyboard. Pior, foram dirigentes que não se modernizaram e nem acompanharam a própria evolução do esporte, que poderia estar no auge, pois somos os maiores campeões mundiais da história! Temos campeões no Masculino Pro, Feminino Pro, Pro Junior… Se somarmos tudo, temos mais de 20 títulos mundiais no bodyboarding. Acredito que em algum futuro próximo, com pessoas capazes de fazer acontecer, voltaremos a ser uma potência e capazes de igualar o surfe, mas, sobretudo, termos nosso valor novamente.

Ano passado você fez uma trip para Puerto Escondido, no México. Conta como foi sua primeira temporada no beach break mais pesado do planeta.

Realmente 2017 foi um ano incrível. Mesmo focado em surfar as lajes, apareceu uma promoção para o México, e como queria muito conhecer Puerto Escondido, por ser ser uma onda perfeita, fundo de areia, ondas grandes e potentes. Não perdi a oportunidade de fazer essa trip alucinante. E foi incrível, surfei altos tubos, ondas grandes, perfeitas e, o melhor, com água quente! Lá, também aprendi muito sobre preparo físico e psicológico, pois, em Zicatela, se você não estiver preparado para os grandes dias, o sonho de surfar altas ondas pode tornar-se um pesadelo.

Miguel Diaz
Temporada de 2017 foi coroada com viagem para Puerto Escondido, México.

E quem te apoia nesta jornada intensa?

Hoje não tenho nenhum patrocínio! O que tenho são parcerias e apoios de prancha e acessórios, os quais uso no meu dia a dia de treinos. São eles: GTBoards (marca do hexacampeão mundial Guilherme Tâmega), Pena, Industry, Onix Bodyboardshop, ProShot Brasil e Shad Clothing.

Para encerrar, deixe uma mensagem pra molecada que te admira e sonha em seguir seus passos.

Em primeiro lugar, agradecer sempre a Deus e à minha família por me proporcionarem a oportunidade e saúde para fazer o que amo. Em segundo lugar, quero dizer à molecada que sonha em ser um bodyboarder profissional para nunca desistir dos seus sonhos, independente do que digam! Ninguém nasceu campeão ou melhor em tudo, então, treinem, se dediquem e, o mais importante, respeitem seus pais e não deixem de estudar.