Chicama sobre as águas

Com direito a onda de seis minutos, Motaury Porto relata viagem de foilboard às intermináveis esquerdas de Chicama, Peru.

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Muitas pessoas têm me perguntado sobre qual é sensação de surfar de foil. Tenho respondido que para mim é como descer uma montanha de neve em um snowboard, só que na água, percorrendo massas líquidas e “flutuando” sobre as mesmas.

Meu início no foil como praticante foi dia 16 de setembro do ano passado, na modalidade SUP. Poucas semanas depois, meu padrinho no esporte e fabricante destes equipamentos, Alexandre Tavares (King Foil), adaptou o foil numa pranchinha 5’4” estilo Mini Simmons que tenho no meu quiver. Bingo, era o que buscava! Mais algumas semanas e já estava com meu atual equipamento; um foil board 4’8” super ágil e também novas asas para diferentes performances nos diversos tipos de ondas.

Comecei a buscar referências e vi no YouTube um surfista israelense, de nome Amit Inbar, pegando ondas incríveis com seu SUP foil em Chicama, e também o waterman Laird Hamilton, que dispensa apresentações, percorrendo uma onda de mais de 2 minutos e meio! Fiquei em estado de completa empolgação. Já havia estado em Chicama em 1984, quando tinha 20 anos, novamente em 2008 quando surfei um super swell, e mais recentemente em 2015, mas só de passagem, pois o mar estava pequeno e estávamos em Pacasmayo.

Imediatamente comecei a pensar: tenho que ir pra Chicama praticar o foil surf! Seria um sonho se em 2018 eu já pudesse ir. Num esforço quase diário me dediquei horas e mais horas em todas as condições de mares possíveis à pratica do foil surf aqui em Santa Catarina, onde moro. Cheguei a perder mais de três quilos em três meses de tanto exercício que fiz nas extensas horas remando e aprimorando a técnica do foil surf de pranchinha.

Numa das minhas conversas com o King (Alexandre Tavares) propus a ele: “vamos para Chicama surfar de foil?”. A resposta foi quase que imediata: “sim brother, vamos nessa!”.

Me deu aquela adrenalina e minha missão passou ser o preparo ainda maior para desfrutar ao máximo tudo que as ondas nos ofereceriam. Passados mais alguns dias e nossa barca para Chicama foi ganhando forma e força com a confirmação do Fernando Mizi, que eu chamo de Kai Lenny brasileiro, devido à sua altíssima performance no foil e do também super talentoso foil surfer Lucas Petroni, ambos de Santos.

Mas o time ganhou mais peso ainda com o surfista e supista, Bruno Alves, um dos fundadores da revista Fluir, fotógrafo e aventureiro, que para mim é nosso Indiana Jones do surfe, tal a bagagem de décadas de descobertas surfísticas que ele possui pelo mundo afora. Para completar nosso super time Anthony Kotrozinis, que além de surfar altas ondas, é filmmaker e está mandando super bem com as imagens de drone.

Era fechar a data e ficar na expectativa do swell coincidir com nossos dias lá. Agendamos para 14 a 20 de maio. O tempo voou, como um foil percorrendo os dias e semanas e quando nos demos conta, já estávamos todos nos encontrando de madrugada no aeroporto internacional de São Paulo, Guarulhos.

Nossa chegada foi emocionante, com ondas lineares, ainda pequenas, mas simetricamente riscando o Pacífico Sul com um vento forte terral e gelado devido à corrente marítima de Humboldt.

Mas o melhor estava por vir. Nos dias que se seguiram, fomos ajustando os equipamentos e vendo como as ondas se mostravam surfáveis para o foil. A previsão indicava uma subida do swell e aproveitamos antes para pegar ótimas ondas em Pacasmayo e também visitar Huanchaco, onde tem um ótimo point break de esquerdas e é o berço dos milenares caballitos de totora, usados até hoje pelos pescadores!

Bruno e Anthony se aventuraram nos caballitos e ensaiaram alguns drops. Também visitamos as ruínas de Chan Chan, um dos mais preciosos sítios arqueológicos do mundo (declarado pela UNESCO em 1986, patrimônio cultural da humanidade) que foi a capital do Reino de Chimu, um dos mais poderosos da América do Sul, embora menos famoso que o Inca.

Mas de volta ao surfe em Chicama, o melhor nos aguardava! O swell ganhou um pouco de força e as ondas quebravam na distante La Punta, quase 4 quilômetros do nosso hotel. Minha meta era surfar a onda mais longa da minha vida. Já meus parceiros de foil queriam igualar o recorde recém-estabelecido este ano por Dave Kalama e Laird Hamilton, vindo de La Punta, passando por El Cape, La Cruz, El Point, Las Tetas, El Hombre e El Pueblo, chegando até o píer! Ufa, quatro quilômetros que exigiriam muita técnica, pernas e sorte também ao escolher a onda certa que viesse por todo o percurso.

Eu consegui pegar algumas ondas muito extensas e em duas delas, meu GPS do relógio marcou 1,7 quilômetros! Foram mais de dois minutos surfando cada uma na velocidade de 33 km/h. Foi algo surreal, indescritível, percorrer essas massas d’água flutuando por longas sessões sem nenhuma espuma, apenas na ondulação, que percorria velozmente bem para fora da costa. Uma sensação de liberdade que ainda não tinha sentido nos meus mais de 45 anos surfando e que o foil surf em longas distâncias pode oferecer de uma maneira tão intensa e peculiar!

Cheguei a ver o King, numa ondulação tão no outside e tão veloz, que me fez lembrar do vídeo no YouTube do Laird Hamilton, só que muito melhor, pois eu estava ali presenciando e vivendo tudo aquilo ao vivo e com meu amigo como protagonista. Surfei inclusive ondas em conjunto com Lucas e Mizi, revezando o posicionamento nas extensas vagas, onde pudemos nos filmar com nossas câmeras GoPro.

Bem de longe, vindo na onda, víamos a galera no El Point, esperando as ondulações chegarem e quebrarem ali para se estenderem por mais 2,2 km até o povoado de Chicama. Essa parte era a mais difícil de conectar com o foil e acabei ficando por ali, mas surpreendentemente e com uma habilidade fantástica, tanto Lucas como Mizi passaram esta seção, conectando e sumindo da minha vista indo muito, muito longe!

Após nos encontrarmos de novo no bote que nos resgatava e nos recolocava em La Punta, veio a confirmação. Mizi havia igualado o recorde, surfando desde La Punta até o píer, numa distância de quatro quilômetros conectando duas ondas que resultaram em seis minutos sobre a prancha sem cair, numa velocidade de 43.4 km/h! Haja pernas e preparo cardiovascular! Lucas estava em estado de êxtase, pois também tinha chegado até El Hombre, pouquíssimos metros antes do píer numa única onda. Foi uma sessão histórica, algo que marcou nossas vidas.

As demais sessões de foil continuaram e ficamos maravilhados com tudo o que estávamos vivendo ali. Pudemos ainda fazer tow-in surf foil, pegando em La Punta ondas antes delas começarem a quebrar. Surreal.

Surfamos também nestes dias, de pranchinha, e tanto Bruno como Anthony mandaram super bem e percorreram enormes distâncias. E para completar, tudo foi registrado em fotos e vídeos, pois Anthony fez imagens espetaculares com o drone, e Zorro e Gian Carlo, filmaram e fotografaram nossas sessões, de fora e dentro do bote. Que privilégio!

Fizemos várias novas amizades e nosso grupo esteve sempre unido e na maior vibe. Cheguei inclusive a conhecer a Lulu Wiegers, uma “jovem” surfista americana de 70 anos, pegando muitas ondas em El Point!

Já na volta para o Brasil, meditando em tudo que passamos ali, viajei no tempo e me lembrei da minha primeira vez em Chicama em 1984. Jamais imaginaria que passados todos estes anos, estaria hoje em dia, surfando no maior gás novamente em Chicama, com amigos incríveis, voando, “flutuando” por muitos minutos pelas ondulações oceânicas.

Deus nos reserva muitas surpresas e acabo este texto citando uma passagem do meu livro de cabeceira: Is. 40.31 “Mas os que esperam no Senhor renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão.”

Agradecimentos especiais ao agente de turismo Wagner Wons, que conseguiu as melhores tarifas aéreas e organizou toda a logística da viagem. Também gostaria de agradecer ao Chicama Boutique Hotel, Delfines de Chicama, além de Zorro e Gian Carlo (@chicama_surfing), responsáveis pelas imagens.