A Urca perdida

Fotógrafo Guga Soares relata expedição histórica à Urca do Minhoto, no Rio Grande do Norte.

0

Em uma segunda-feira (26/2), como de costume, acordo e abro meu WhatsApp no grupo dos amigos, o QSS. O assunto principal era o grande swell que vinha com força total, quase o dobro do swell que na semana anterior havia encostado no litoral norte do Rio Grande do Norte.

No dia seguinte, não conseguia dormir direito, só pensando em como estariam as famosas Urcas, em especial a Urca do Minhoto, que já tinha quebrado clássica pouco antes com ondas grandes e perfeitas.

As Urcas foram desbravadas por volta dos anos 1980, em uma expedição liderada por Armando Diniz e outros surfistas do Rio Grande do Norte. Em 2013, os surfistas profissionais pernambucanos Paulo Moura e Alexandre Ferraz mostraram a qualidade da onda e revelaram ao mundo todo o potencial dessa maravilha da natureza.

Entrei em contato com uma galera para formar a barca, mas não estava conseguindo, então lembrei do shaper e big rider Rúclecio Lucena. Formamos a barca perfeita: eu, Ruclécio, Fred Eremita, paulista e o surfista profissional Douglas Silva.

Saímos do Recife na quinta-feira pela manhã e fizemos o cansativo trajeto até chegarmos a noite em Guamaré, cidadezinha do litoral norte do Rio Grande do Norte. Na estrada, um pouco de tensão na chegada, muitas luzes indicando perigo. Era o carro que vinha trazendo o big rider Pedro Calado. Houve um problema na roda do carrinho que levava o seu jet e ela havia caído. Nada de grave, só um susto. Ajudamos o pessoal e fomos em busca da pousada, pois todos estavam muito cansados.

Juntamos a equipe na pousada e conversamos um pouco sobre como seria na madrugada, horário de saída, o que levar, coisas corriqueiras de uma surf trip. A única coisa que ninguém sabia era o que enfrentaríamos para chegar até a Urca e como estariam as ondas. Sabíamos que tinha um swell forte de intensidade jamais vista, mas não sabíamos o que esperar. Fomos dormir e à meia-noite acordamos para ir ao píer de Guamaré arrumar o barco para partir às 3 horas da manhã.

Dia 2 de março, um dia histórico

Chegou o grande dia e ainda no píer encontramos vários amigos e amantes do big surf. Conversa vai, conversa vem, e o papo da roda sempre eram as grandes ondas que teríamos para contemplarmos.

Encontrei com Aldemir Calunga e perguntei o que esperar do mar. Ele disse: “com certeza iremos pegar ondas incríveis como jamais vimos aqui no Brasil.” Falou isso com um brilho no olhar e um sorriso que fiquei crente de que teria muitas imagens e muitas histórias para contar.

Todos prontos, partimos às 3:15 horas da manhã de Guamaré rumo ao encontro da besta fera nordestina: a tão falada e pouco explorada Urca do Minhoto.

Chegando à boca da barra, o negócio começou a ficar sério: o mar estava grande e fora do normal. O marinheiro deu o alerta. Olhei para o lado e comecei a rezar calado, pedindo proteção aos deuses do mar e permissão à mãe Natureza por estar desafiando-a.

Passado o susto, contemplamos uma lua cheia maravilhosa e um nascer do sol alucinante, tudo para abrilhantar ainda mais esse dia especial. Chegamos ao pico por volta das 5:30, daí começamos a ver as séries entrando com força total. A gritaria tomou conta do barco, todos felizes e sorridentes por ver um verdadeiro espetáculo da natureza. Ondas gigantes com séries maiores de 5 metros. Uma direita perfeita com força brutal.

Todos rapidamente pularam na água e se posicionaram no pico. Chegamos com a maré cheia e as séries estavam demorando um pouco, mas, quando vinham, eram assustadoras. Vários surfistas entraram na remada e alguns com o auxílio do jet-ski. Mas todos em harmonia com o lugar e respeitando a vez do outro.

Do lado esquerdo do barco, uma onda jamais vista quebrava solitária. Vi o Aldemir Calunga ser rebocado por Kauli Seadi e botar para baixo numa bomba pra direita espetacular, sendo o primeiro surfista a desbravar aquela onda.

Quando a maré foi secando, começaram a rodar tubos incríveis. Grandes, largos e longos, ficando cada vez mais difícil para o pessoal da remada. Todos com pranchas acima dos 9 pés tentavam de tudo para pegar a maior do dia, mas o surfe ali não é brincadeira. Vários não conseguiram surfar na remada e partiram para o tow-in.

Grandes nomes do big surf estavam na água: Douglas Silva, Fábio Gouveia, Bernardo Pigmeu, Rogério Soares, Eduardo “Rato” Fernandes, Danilo Costa, Fred ‘Eremita’ Santos, Pedro Calado, Rodrigo Jorge, Ruclécio Lucena, Alexandre Ferraz, Aldemir Calunga, Kauli Seadi, Rodrigo Resende, Jhon Jhon da Pipa, Jr. Lagosta e os bodyboarders Marcelo Gomes, Moa e Rodrigo Pedrosa. Entre outros guerreiros, que com muito sangue nos olhos botavam para baixo sem pena em morras cabulosas de tirar o fôlego.

Pude fotografar vários momentos épicos em águas nordestinas, ondas que jamais foram vistas por essas bandas carimbando de vez o estado do Rio Grande do Norte como uma das maiores potência do surfe em ondas grandes do Brasil. Foram quase nove horas de ação na água com ondas tão perfeitas de fazer inveja a qualquer pico gringo.

Procurando Nemo

Na volta, mais um susto: no meio do trajeto, uma onda grande pegou nosso barco de jeito e quase nos virou. Um de nossos tripulantes, nosso amigo Nemo, caiu na água e tivemos que resgatá-lo em meio ao mar revolto, adrenalina a mil. Mas no fim deu tudo certo e todos voltaram com a cabeça feita, por ter feito história e surfado as maiores e melhores ondas já registradas em mares brasileiros.

Para saber mais sobre o trabalho de Guga Soares, entre em contato pelo telefone (81) 98795-0330 ou acesse o perfil @gs.imagens no Instagram.