Puerto de peito aberto

"Foi um ciclo importante de finalizar para a minha alma ficar mais tranquila." Protagonista de uma das vacas mais polêmicas da última temporada, Fabiano Wainberg abre o coração sobre o episódio em Puerto Escondido.

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Fabiano Wainberg evolui nos canudos pesados de Puerto Escondido.

Quantos surfistas, em seus corações, são tocados pelo desejo de surfar ondas grandes?

Não importa se o cara é local de uma das melhores ondas do mundo, ou vem de uma capital longe do mar. Quando o sentimento expressado na famosa frase “Enfrente os seus medos, viva os seus sonhos!” toca a alma de um surfista, uma hora ou outra, ele irá desafiar seus limites em dias grandes.

Muitos de vocês devem ter visto – e comentado – a vaca sofrida pelo surfista gaúcho Fabiano Wainberg, em agosto do ano passado, durante um swell XXL em Puerto Escondido, México, que virou polêmica e repercutiu o mundo, principalmente pelo fato de a vaca vir junto a uma rabeada.

Uma série pesada de críticas ao brasileiro nas redes sociais, bem como a pressão local, provou a fé e jogo de cintura do surfista natural de Porto Alegre. Para elucidar de vez essa história e conhecer um pouco mais sobre a trajetória de Fabiano, segue um bate papo que tive com ele, que, literalmente, abriu seu coração.

Como o surfe entrou em sua vida?

Sou natural de Porto Alegre e comecei a surfar na Praia de Atlântida, no Rio Grande do Sul, onde veraneio desde pequeno com minha família. Sempre jogava mais bola, curtia muito futebol, mas foi com 13 anos que tive meu primeiro contato com o surfe. O irmão mais velho de um amigo meu surfava e pegava muito bem. Quando o vi quebrando dentro d’água foi impactante. Neste dia, convenci meu pai a comprar uma prancha pra mim… Depois deste verão, passei a frequentar a praia também no inverno, muitas “indiadas” de ônibus “pinga-pinga” de Porto Alegre até Atlântida.

Mesmo morando longe do mar, o surfe seguiu te impactando?

Por sorte, meu irmão mais velho também começou a surfar, e quando ele tirou carteira de motorista, em 1998, passamos a ir quase todos os finais de semana para o Farol de Santa Marta (SC). Tínhamos uma turma de vizinhos em Porto Alegre que também surfava e estava sempre disposta a encarar qualquer adversidade. Foi uma época bastante intensa no “mundo do surfe”. Conheci e aprendi o verdadeiro espírito do esporte, da conexão com o universo e com as pessoas.

Surfista foi lapidado nas ondas de Atlântida e Farol de Santa Marta.

O mar passou a me dar novas perspectivas, a ter mais respeito, humildade e cumplicidade com o mundo, realmente uma fase fundamental para minha evolução como ser humano. Em 2002, assisti no cinema ao filme Surf Adventures, que realmente marcou minha vida e despertou o desejo de conhecer os melhores picos do mundo, como Indonésia, México e Austrália.

E como Puerto Escondido e as ondas grandes entraram na tua vida?

Minha primeira vez no México foi em 2006, depois fiquei dez anos sem ir. Voltei em 2016, 2017 e em 2018. Muito ouvia falar de Zicatela e tinha o interesse de conhecer. Pouco a pouco, fui aprendendo a gostar desse tipo de onda, tubular, desafiadora e difícil.

No Brasil, sempre que posso, invisto nas temporadas de Noronha e Praia do Cardoso. Peguei gosto por sentar no outside e sentir a energia do oceano, com muita humildade e respeito ao mar. Com o tempo, acompanhando a evolução do big surf – não que eu me considere um big rider -, passei a encarar de outra forma o surfe de ondas grandes.

E teus equipamentos para enfrentar dias grandes? Imagino que tu deva investir forte neles.

Acredito que o equipamento para ondas grandes faz toda a diferença, e nesses casos, é a nossa vida que está correndo perigo, e quanto mais reduzirmos este risco, melhor. Por isso, acho alguns equipamentos essenciais para que você tenha mais segurança e chances de êxito, como o uso de um colete big wave, um leash propício, prancha grande e parafina em dia.

Há alguns anos surfo com as pranchas do shaper gaúcho Jairo Lumertz, da Cuscabarone, que tem muito know-how em gunzeiras e ondas grandes e tem me ajudado bastante. Minha prancha do dia a dia é uma gun 8’2, uso ela basicamente de 6 a 12 pés. Prefiro esse tipo de prancha maior, pois me proporciona a remada que preciso para entrar bem na onda e tem a performance necessária para encaixar no trilho. E para mares acima dos 12 pés, nesta temporada levei uma 9’5.

E preparação física, psicológica, espiritual, enfim, faz algo específico?

Sim, hoje em dia mudei meus hábitos de vida, cuido muito mais da minha saúde, busco uma alimentação saudável e equilibrada, atividades físicas são primordiais na minha rotina, como corrida, natação e musculação, além de Yoga, que comecei recentemente.

Ano passado fiz um curso de apneia, depois disso mudou minha perspectiva de técnica para qualquer esporte, principalmente no surfe. Além do cuidado com o corpo, o estado mental e espiritual são básicos para encarar as ondas, mas principalmente para o bem estar geral. Por isso, acho muito importante a busca pela paz, estar bem com a família e amigos, e também a interiorização através da meditação e religião me fortalecem bastante.

E o episódio da rabeada / wipeout em Puerto Escondido ano passado? Foi punk, hein?! Muita gente te julgou e condenou. Outros, defenderam e absolveram. Entretanto, ninguém melhor do que tu para nos resumir a história e como foi o desenrolar após o episódio, que teve repercussão mundial e até indicação para o prêmio XXL na categoria Vaca do Ano.

Foi o dia do ano mais esperado para mim. Treino e mentalizo isso todos os dias da minha vida, em cada treino, em cada sessão de meditação, de apneia e até em momentos de lazer. Há quase um mês em Puerto, estava confiante e bem adaptado para o swell. Ao raiar do dia, junto com meus parceiros da Casa Lunalu, entramos pela Praia de Marinero, e em 20 minutos estávamos no pico.

Depois de mais ou menos duas horas de remada intensa buscando posicionamento no Farbar, no meu campo de visão, eu estava praticamente sozinho no pico, aí levantou uma das séries do dia, vi que era a minha oportunidade, remei com tudo, sem hesitar… Quando parecia tudo estar indo bem, fui subir na prancha e em questão de milésimos vi que fiquei preso pelo lip e logo suspenso no ar, dando apenas tempo de ejetar da prancha e ser jogado para a base da onda.

Na hora, pensei: “Estou em perigo!”. Lembro de voar do lip até a base da onda, somente ver uma parede azul que me consumiu rapidamente, logo fui chacoalhado pela força da onda por algum tempo, mantive a cabeça no lugar e por alguns instantes pensei: “Vou sair dessa”. Emergi, e quando olhei para frente, uma onda enorme estava vindo, apenas deu tempo para puxar mais um ar e mergulhar. Depois de ser esmagado mais uma vez pela força da água, consegui voltar à superfície para respirar. Quando olhei para o lado, vi um surfista na mesma condição que a minha, me falando “Estaba en el tubo”. Na hora me caiu a ficha… como ele estava comigo no outside, eu entrei na onda dele.

Pronto, estava escrita essa história. Nisso, com minha prancha partida ao meio, tivemos uma discussão na praia no calor do momento. Entendo e o respeito, imagino que tenha passado ainda mais perrengue por não estar vestindo o colete, nem leash. Sobre a indicação ao prêmio XXL, foi surreal, inesquecível!

E sobre aquele áudio que viralizou e acabou te colocando em uma espécie de julgamento em praça pública? Tens algo a acrescentar?

Logo quando cheguei em casa, um amigo que está morando na Califórnia me mandou um áudio perguntando como é que foi a vaca, quem era o cara que estava na onda, se eu estava bem, enfim, conversa entre amigos pós surfe. Contei tudo o que relatei aqui e com amigos, só a verdade. Jamais teria entrado numa onda com outra pessoa, sei o risco que corremos nesse tipo de onda, não importa o tamanho que esteja o mar!

Em algum momento do áudio, comento, sim, que estava amarradão por ter protagonizado um wipeout nessa sessão de surfe, mas não por ter entrado na onda de outro cara. Isso deu margem para muita gente criticar e levar para o lado negro da história, me julgando estar feliz por ter entrado na onda de outro cara. Isso não, não sinto nenhuma felicidade em ter atrapalhado a onda de outra pessoa e pior ainda de ter colocado em risco a vida de alguém! Esse áudio piorou ainda mais a situação, não pela falação da galera na internet, mas entre eu e o Max, que para mim, era o que mais importava.

Fabiano tem que lidar com as séries pesadas e o crowd nas condições extremas de Puerto.

Maximilian Diaz, o Max, é um americano muito respeitado e praticamente local de Puerto. Como foi lidar com ele, que “bufava” via redes sociais?

Depois de tudo isso, eu e Max nos aproximamos via redes sociais. Logo enviei uma mensagem me desculpando pelo ocorrido, que não era minha intenção e que me sentia mal por ter estragado a sua onda. Ele me retornou dizendo que estava muito bravo com a situação, que coloquei a vida dele em risco, que preciso ter mais atenção e que por favor não cometesse novamente erros como esse. Novamente lamentei e disse que desejava o melhor para ele e que queria pessoalmente pedir desculpas.

Logo depois chegou o áudio ao seu conhecimento. Max me contatou dizendo que queria me ver e perguntou onde eu estava ficando. Disse onde estava e que sim, poderíamos conversar! Por um imprevisto do dia, ele não pôde ir. No outro dia, fizemos contato novamente e ele me disse estar bravo com a situação, que era para eu ter cuidado com os locais e que não iria até a Casa Lunalu para conversarmos. Logo me prontifiquei em ir até ele, disse que não era justo me julgar por um erro numa onda e que gostaria de encontrá-lo pessoalmente.

Cheguei em frente a sua casa e ele estava lá junto com um amigo, fui acompanhado do Vandielli e sua esposa Maria (donos da Casa Lunalu). Ficamos a sós e tivemos uma conversa de uns 30 a 40 minutos. Tive a oportunidade de resolver o caso com quem eu realmente tinha que resolver.

Ele me relatou os minutos de pavor que viveu debaixo da água, da expectativa de fazer a onda da vida, de ter me visto voando lá de cima da onda em sua direção, que coloquei a vida dele em risco, que deveria fazer sozinho se quisesse levar um wipeout desses, também que ficou muito bravo com o áudio e que muita gente estava falando para ele resolver com violência, mas que não era o que ele acreditava por ser uma pessoa de bem.

Ouvi pacientemente e depois passei a minha versão, de consciência limpa, agradeci por sairmos ilesos e que por algum motivo o universo conspirou em nos cruzar nessa situação. Nos cumprimentamos como homens e pude descobrir nele uma pessoa do bem e surfista de alma, dando fim, pelo menos entre nós, nisso tudo. Foi um ciclo importante de finalizar para minha alma ficar mais tranquila.

“Internado” no beach break mais pesado do planeta.

Vamos falar de tubos… Como foi teu mês “internado” no melhor beach break do planeta?

Zicatela, para mim, tem um sentido especial, lugar mágico e abençoado. Me sinto totalmente conectado com o universo e espiritualizado nesse ambiente. A energia e o aprendizado sempre são intensos. Sempre fico hospedado na Casa Lunalu com meu amigo Vandielli e sua família. As pessoas que ficam hospedadas lá acabam se tornando irmãs e parceiras de desafios. Alguns já conhecidos de outras temporadas e outros novos amigos, todos em busca da mesma coisa, tubos e adrenalina.

Todo meu tempo de viagem é dedicado para Zicatela, nunca fui para outras praias do México por me focar nessa onda. Isso acaba às vezes limitando de conhecer novos lugares maravilhosos de surfe também, mas o meu compromisso é com a onda de Zicatela e em aprender a surfá-la.

E como ficou tua vibe com a Zicatela depois desta última temporada?

Cada ano que vou sinto minha evolução nessa onda, que é muito difícil e ainda tem um crowd intenso de surfistas locais e de todo o mundo, que sonham em surfar essa onda tão especial. É um lugar que humildade e respeito andam lado a lado. Amigos mais íntimos da Zicatela dizem que ela é justa, que não engana ninguém e presenteia aqueles que merecem sua glória. Isso torna o lugar ainda mais incrível, na minha opinião.

Ela não engana. Se você se preparou de verdade, será recompensado. Passando tudo que aconteceu nessa trip, me sinto com a missão cumprida, realizado em ter surfado todas as ondas da minha vida. Saio com muito aprendizado dessa experiência, evolução no surfe e na vida, dentro e fora d’água.

Enfrentei meus desafios, superei meus limites e consegui lidar com as minhas frustrações. Na memória, eternamente os tubos que surfei, as amizades que fiz e a perspectiva para as próximas viagens. Com certeza Puerto Escondido mora no meu coração e é um lugar que, sempre que eu puder, vou me fazer presente! Obrigado Puerto, viva México!

Para finalizar, deixe uma mensagem para a turma que falou pra caramba de você nesse episódio da vaca / rabeada.

Eu acredito que nada nessa vida acontece à toa, e esse evento teve o seu porquê, algo muito maior do que simplesmente o surfe em si. Foi uma experiência de vida para meu crescimento pessoal e espiritual. Antes de qualquer coisa, somos todos seres humanos, todos irmãos, independente da etnia, raça ou classe social. Na leitura do surfe, respeito todas as opiniões – nem todas concordo –, mas de longe é muito fácil criticar.

Não posso deixar de falar das mensagens de apoio e preocupação com nosso estado físico, meu e do Max. Àqueles que me conhecem, que sabem de toda minha dedicação e paixão pelo surfe, agradeço as mensagens escritas, ditas e mentalizadas, sei que foram de coração. Desejo a todos muita luz e alegria no caminho. Um forte aloha, paz e amor a todos!

Matéria originalmente publicada no site Pampa Barrels.