O peso de Mavericks

Ricardo Taveira relata a adrenalina de dropar pela primeira vez as ondas geladas de Mavericks, Califórnia (EUA).

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Ricardo Taveira (prancha vermelha) comemora aniversário em grande estilo.

O Hemisfério Norte não para de bombar. Março foi um mês incrível para o surfe. Agora já estamos em abril e as ondulações continuam entrando forte no Havaí e na Califórnia.

Logo na primeira semana deste mês, a previsão apontou uma tempestade se formando ao norte do Havaí e crescendo em proporções gigantes rumo à Califórnia. Tudo indicava que em 6 e 7 de abril um swell enorme atingiria Mavericks com muita força. Como essa data coincidia com meu aniversário (7 de abril), resolvi me dar um presente: surfar Mavericks pela primeira vez — há tempos eu sonhava com isso!

Comecei a programar a viagem e entrar em contato com surfistas que provavelmente surfariam aquele swell. Liguei para Carlos Burle e Lucas Chumbo, eles disseram que iriam. Falei também com o fotógrafo Pedro Bala, que reside perto de Mavericks, e trabalha lá toda vez que essa onda quebra. Ele já estava organizando a saída de barco com os atletas Burle e Chumbo.

Pedro é o anfitrião dos brasileiros que querem surfar Mavericks: ele providência barcos, jet-ski para segurança aquática e, claro, tira fotos da galera botando pra baixo. Com anos de experiência em clicar no pico, Pedro também conhece bem as previsões locais.

Tudo o que esperávamos, então, era o swell se desenvolver da maneira que a previsão indicou. Mas isso não aconteceu. Embora ainda super potente, o swell não se formou do tamanho esperado e, por isso, os dois melhores big riders brasileiros desistiram de ir — para Burle e Chumbo só valeria a pena sair do Havaí se as ondas estivessem realmente gigantes. Já para mim, como iria surfar Mavericks pela primeira vez, confesso que foi um certo alívio saber que as condições não estariam tão assustadoras.

Experiente big rider, ele sente o peso de uma vaca no pico.

A previsão passou a marcar a chegada do swell em Mavericks para sábado, 6 de abril, com mais de 20 segundos. O pico seria no domingo, dia 7, com 14 pés a 16 segundos. De acordo com Lucas Chumbo, Mavericks quebraria com 15 a 18 pés (5 a 6 metros) com vento e condições ideais. Isso era tudo o que eu queria.

Um dos fatores que determinou a boa qualidade desse swell foi sua direção oeste e período alto. Então, em 5 de abril, embarquei em Honolulu com destino a São Francisco, Califórnia.

O dia 7 amanheceu com neblina e, já na saída da marina, podíamos sentir a energia das ondas. De acordo com Pedro, a neblina ajuda a manter os ventos bem calmos. Foi o que rolou. De manhã, o crowd contava com todos os locais mais jovens e algumas lendas que surfam Mavericks há mais de 20 anos.

Que dia! Altas ondas, o sol saiu, o vento se manteve calmo e o crowd também, totalmente tranquilo. Séries de 4 a 6 metros quebraram direto e todos compartilharam as ondas. Aquilo parecia, segundo uma das lendas de Mavericks, os “good old days” (bons velhos tempos).

Mesmo sem estar gigante, essa onda é muito pesada e deve ser respeitada a todo o tempo. Trevor Carlson, um amigo que também veio do Havaí para aproveitar o swell, deslocou o ombro em uma vaca e teve de ser levado ao hospital. Vários surfistas tomaram grandes séries na cabeça e algumas pranchas foram quebradas no decorrer do dia.

Surfista visita a lendária Steamer Lane, em Santa Cruz.

Consegui pegar boas ondas e também tomei bons caldos, situações em que pude pôr em prática as técnicas de apneia que tanto exercito e ensino em cursos mundo afora — em maio, ministrarei meu curso de Apneia, Segurança e Sobrevivência no Mar para surfistas em São Paulo e no Rio de Janeiro (veja abaixo o box com datas e locais dos cursos).

Com certeza, a prática da respiração diafragmática padronizada, e a familiaridade que tenho com os exercícios de apneia, foram fundamentais para eu me manter calmo e focado durante todo o dia de surfe. Aquele bowl de Mavericks é muito sinistro e a onda segura você por muito tempo embaixo da água — e agora sei por experiência própria que realmente é escuro e gelado lá embaixo.

O trabalho de respiração para elevar a oxigenação sanguínea deve ser mantido por todo o tempo. Isso aumenta a concentração, energia e autoconsciência durante qualquer atividade física. Graças a esse método, hoje consigo surfar ondas que sempre sonhei e me sentir seguro no mar.

Foi alucinante poder passar meu aniversário em Mavericks! E no dia seguinte tive o privilégio de realizar outro sonho: ir para Santa Cruz, uma hora ao sul de Mavericks, e surfar a legendária onda Steamer Lane, point break com ondas muito longas e super manobráveis. Que trip!

Curso de Apneia, Segurança e Sobrevivência no Mar para surfistas: datas e locais*

28/04 – Academia Sumaré, São Paulo, capital. Curso de um dia.
01/05 – Universidade de Mogi das Cruzes, Mogi das Cruzes (SP). Curso de um dia.
02/05 – Maresias, litoral de São Paulo. Curso de um dia.
03/05 – Santos/São Vicente, litoral de São Paulo. Curso de um dia.
04 e 05 de maio – Guarujá, litoral de São Paulo. Curso completo de dois dias.
10 e 11 de maio – Rio de Janeiro, capital. Curso completo de dois dias.

Ricardo Taveira é mergulhador Master Diver Trainer pela PADI, instrutor de apneia e proprietário da Hawaii Eco Divers (HED), empresa de mergulho, surfe e ecoturismo localizada no North Shore de Oahu. A HED também organiza pacotes de viagem para brasileiros que querem curtir o Havaí. Pedro Bala é fotógrafo profissional, residente em Ocean Beach, São Francisco.

*Mais informações em info@hawaiiecodivers.com.