Um pouco de surf e maconha

Colunista Fernando Costa Netto fala sobre a antiga relação entre o surf e a maconha.

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Jamaicano Inilek Wilmot a caminho das ondas.

Um dos ex-alcoólatras mais famosos do país se chama Ruy Castro. Ruy, jornalista e escritor de primeira linhagem, chegou a beber de 2 a 4 litros de vodka por dia. Dependente químico e dono de alguns dos melhores textos publicados no país. Circula pelas redações que durante a fase junkie, era um cara insuportável, como todo junkie que se tem notícia.

Mas de longe, de onde sempre o acompanhei, Ruy era e é um cara notável, bem informado e dono de textos que transportam a gente para outros lugares! Autor de biografias como Anjo Pornográfico (sobre a vida de Nelson Rodrigues), Estrela Solitária (sobre Mané Garrincha), Carmen (sobre Carmen Miranda), um estudioso da bossa nova com reconstituições históricas incríveis como “Ela é Carioca”, que fala sobre o bairro de Ipanema ou “Chega de Saudade”, sobre a Bossa Nova, para citar alguns de seus clássicos.

Gostaria de recomendar a leitura de suas crônicas semanais, mas não sei se ele continua escrevendo na página 2 da Folha, deixei de assinar o jornal há semanas desde publicações maldosas e mal informadas sobre fotografia, que é a minha área, naquele periódico. Porcarias para qualquer uma dessas publicações decadentes de fofoca, não para um jornal como a Folha de S. Paulo.

Provavelmente pelos anos de enorme bad trip com o álcool, hoje em dia, quando questionado, Ruy sempre se coloca contra qualquer situação que envolva o afrouxamento do uso da maconha, seja para uso recreativo ou em qualquer situação.

Ruy adora recordar o passado, escreve sobre o cinema americano e francês dos anos 50, sobre a música em 78 rotações, fazer resgates como goleadas históricas no Maracanã, Paulo Francis, Botafogo, Jango, o Mundial de 1958… e um dia desses, brilhantemente, ele puxou mais uma do fundo do baú ao comentar a polêmica do atual libera-não-libera da erva. Lembrou dos surfistas do Píer, uma rapaziada que antigamente só aparecia na imprensa pelas páginas policiais e sempre envolvida com a ‘erva maldita’.

O texto emprestava um bordão de um delegado chamado Elói que atazanou muito a vida de quem surfou a Praia da Guarda e Garopaba nos anos 80: “Nem todo maconheiro é surfista, mas todo surfista é maconheiro.” Elói merece uma coluna inteira para ele neste espaço, um xiita que humilhava e prendia a molecada gaúcha, carioca e paulista que estava escrevendo um capítulo da história nas praias de Santa Catarina.

Insight 51
“More trees less assholes”.

Recordo de um outro capítulo bizarro / patético da imprensa canábica e o surf. Um repórter, se não me engano da falecida Folha da Tarde, que prefiro não dizer quem é, foi escalado para cobrir um campeonato nacional em Saquarema nos anos 80 e o episódio rendeu algumas das mais altas gargalhadas que já ecoaram pelo litoral brasileiro. Isso foi em 84 ou 85, quando saquei que nem tudo o que se lê é digno de crédito.

As barbaridades do texto iam desde os verbos haoles e de gente que nunca havia visto alguém de pé numa prancha do tipo o surfista “fez” um tubo até comentários machistas sobre as nossas lindas meninas, além claro, do tom de desprezo com a comunidade que amava as praias e os Rolling Stones.

A fama de maconheiro dos surfistas era tão grande na mente desse cabaço que ele resolveu por conta própria subir alguns degraus, inventar, sonhar e publicar um texto medíocre para o jornal onde dizia que as areias de Saquarema estavam repletas de seringas, tamanha era a quantidade de ‘viciados em maconha’ no evento. O tempo passa, o tempo voa e em 2018 o surf vem dando um show de profissionalismo com maconha ou sem maconha, sem dúvida sem seringas.

E essa mesma grande imprensa de um país tão carente de ídolos ainda segue sem notar a grandeza dos conterrâneos entre os maiores neste magnífico esporte, seja no Circuito Profissional seja nas montanhas de água de Nazaré ou Jaws. Maya Gabeira, por exemplo, merece um capítulo só para ela pelas ondas que tem surfado em Nazaré e por ser a mais importante surfista de ondas gigantes do mundo.

Uma menina especial como seu pai, Fernando, aliás, usuário das antigas, um cara que no auge da repressão e das prisões causadas por uma simples ponta levou um saco de semente no Jornal Nacional para defender o cultivo e a utilização da maconha para outros fins além o do que antecede ou precede uma boa sessão de surf.

“Respeitamos a liberdade editorial de todos os nossos colunistas. As ideias expressadas no texto acima nem sempre refletem a opinião do site Waves”.

Fernando Costa Netto
Jornalista e fotógrafo, Fernando é idealizador da Mostra SP de Fotografia, maior evento expositivo de fotografia de São Paulo, um dos fundadores da revista Trip e iniciou projetos editoriais como os das revistas Venice (1993), Boom (1994) e 2005 (2005). Foi editor-chefe do extinto jornal Notícias Populares, do Grupo Folha, entre 1997 e 2000, e integrante do coletivo Polaroid SX70.