Psicopatologia do Tour

João Guedes exalta o talento descomunal de Gabriel Medina.

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Pipeline foi palco da grande decisão do Circuito Mundial.

Algumas fronteiras dividem os surfistas; que nada sabem sobre campeonatos, blogs e outras quimeras características do universo de competição; daqueles cujo ânimo incide em transformar uma bateria numa representação de um espetáculo de vida ou de morte.

Com alguma quilometragem nas águas salgadas e, pasmem, tendo percorrido cerca de quatro décadas dentro das cercanias do nosso mundinho, aprendi que essa divisão pouco ou nada vale. Afinal, o surf é, e sempre será, um momento de consciência do risco frente à natureza, aos nossos limites e, sobretudo, à capacidade do corpo encontrar formas inusitadas de permanecer ereto sobre uma prancha.

Viver ou morrer é uma falsa questão quando sabemos que, na próxima junção, aquilo que realmente vale é saber se estamos dispostos a pôr tudo à prova ou apontar, sem cerimônia, o bico para a praia…

Suspeito que os antigos moradores do arquipélago forjaram entre os seus descendentes essa compreensão a respeito da arte de enfrentar a força das marés. Quando ando pelo litoral norte de Oahu, não é difícil deparar-me com um cem números de surfistas anônimos, alheios às câmeras e a patrocínios. Muitos desses camaradas, verdade seja dita, podem ter rompido todos os limites da sensatez, no dia anterior, em alguma bancada das sete milhas.

Já os vi no lineup algumas vezes… Os olhos são de caçador, o ritmo da respiração é inalterável e a determinação de arriscar-se, incólume, sobre a lâmina de água transparente sob a qual se vê os dentes do coral expostos, sempre me provocou admiração.

Ao redor desses camaradas anônimos, surfistas do dia a dia, ergueu-se uma indústria. Nelas, encontramos roupas, Heat Analyzer e escritores capazes de transformar em narrativa os feitos dos personagens que vivem do surf de competição.

Nessa toada, algumas coisas parecem ter sido tragadas para dentro das entranhas do monstro e, por isso, temos a impressão de que elas parecerem ter pertencido à WSL desde antes de o mundo ter sido mundo. Todavia, quando a examinamos de perto, percebemos que elas ainda carregam consigo algo do velhos polinésios.

Pipeline é certamente uma dessas coisas e, por caminhos nem sempre claros, o surf de Gabriel Medina é outra. Afinal, o filho de Charles é, nos estertores de 2018, o surfista mais admirável do mundo. E isso se deve graças à sua atuação nas seis baterias que ocorreram na última etapa do Tour deste ano. Eu mesmo, confesso, chorei igual a uma criança na noite de segunda-feira… Que atuação!

Enquanto o campeonato apontava para o seu desfecho, observava uma narrativa, há algum tempo construída, ecoar, aqui e acolá, nos comentários sobre a performance do iminente campeão: “Caçador!”; “Focado!”; “indestrutível!”.

Gabriel Medina concentrado para buscar seu segundo título mundial.

O confessionário de um anônimo

Deus sabe que amo o surf de competição. Sempre me encantou ver a tragicidade de uma bateria de 30 minutos. A suspensão do tempo e do espaço… Confesso que ninguém me provocou tamanha fascinação nesse universo de palanques do que o filho de Charles.

Desde o momento em que o vi no Rip Curl Grommet Search em Florianópolis, dez anos atrás, fui atraído pelo surf do rapaz como um imã sobre uma pedra de ferro bruto. Estive num campeonato em Pitangueiras, mais ou menos na mesma época, em que assisti, com esses olhos que a terra há de comer, a uma das mais brilhantes atuações de surf de todos os tempos. A praia contra, a torcida contra, Netuno contra… e, impávido, envolto por tranquilidade inexplicável, Gabriel esquivava-se de tudo e de todos para cumprir o seu destino.

Em outra ocasião, ignorou Neco, um dos meus surfistas prediletos, com uma simplicidade que, até hoje, não vi em outro ser humano. No intervalos do campeonato, o menino brincava com os seus, provocava-os com a força de sua juventude… Nas baterias, desafiava um mar horrível, remexido pelo vento cortante. Sem muita explicação, lá estava eu para assistir ao mais novo campeão de um WQS em toda história do surf profissional… 16 anos… 16 anos…

No computador, in loco ou nas histórias contadas pelos meus camaradas, tomei tento do tamanho do menino, cuja história precisava apenas ser conhecida para que outros, como eu, lhe dessem o respeito merecido…

Estive na França, em Portugal, no Havaí. Volta e meia, abandono os meus afazeres e pego um voo para tornar-me anônimo e reviver àquele sentimento despertado em mim nas areias da Joaquina…

Quando tento explicar em casa – sim, porque não é fácil explicar isso em casa – qual a razão justifica o fato de ser levado a isso, lembro de Joel Parkinson a dizer, logo após a etapa de São Francisco: “Gabriel é um dos seres humanos mais talentosos que já vi!”. Não sei bem, mas isso parece ajudar a justificar qualquer insanidade.

Certa feita, li uma entrevista do Fred D’Orey em que ele sempre pagava a direção contrária de qualquer campeonato… Não suportava tanta gente disputando uma onda… Eu, que sempre me comportei do mesmo modo, pareço ter adquirido dois novos hábitos desde que encontrei, pela primeira vez, o filho de Charles. Vou surfar com a multidão e comecei uma carreira de escritor bissexto… Já possuí um blog sobre surf e quase me transformei em colunista da Fluir graças à generosidade do Adrian Kojin. No entanto, uma das minhas alegrias mais pessoais é compartilhar impressões com os camaradas do fórum do Waves e, vez ou outra, publicar um artigo no site.

Medina atrasa para passear por dentro do cilindro.

Os textos não apócrifos do dia seguinte e da semana passada

Encontrar um modo de narrar o acontecido não é uma tarefa fácil. A narrativa de cada bateria, dos detalhes de um campeonato, parece-me, sempre, um pré-release. Sempre cavo na internet textos que sejam capazes de escapar da obviedade das narrativas factuais… Advirto a quem ainda não tentou tomar esse caminho: a tarefa é inglória…

Embora a maioria dos textos sejam, raras e admiráveis exceções, organizados como um relato cronológico; muitas vezes os adjetivos, que se intrometem na frieza dos informes, revelam as cifras das teses que ganharão força no futuro. Afinal, poucos escapam de resvalar as suas análises nas franjas de opiniões pouco refletidas ou, em outras palavras, pouco esclarecedoras do que está realmente em jogo.

Desde segunda feira, percorro sites americanos, australianos e franceses em busca de algo além do óbvio: a virada de Gabriel nas quartas de final foi um dos momentos mais incríveis da história do surf e isso se deve ao fato de ele ser um competidor implacável!

A tese não me convence e, a despeito de concordar que aquilo foi inacreditável, não consigo admitir que isso aconteceu porque o rapaz entende as regras do jogo como nenhum outro surfista do Tour, mas, sim, porque ele é um surfista raro, herdeiro legítimo de uma tradição que vai além dos limites impostos pela ASP e pela WSL.

Uma primeira aproximação, de caráter geral, à discordância contra a tese hegemônica que invade, se dó nem piedade, as narrativas do título de 2018, nasce da leitura atenta de alguns dos escritores mais originais do universo do surf.

O fenômeno brasileiro sobrevoa a junção em Pipeline.

Coisa fina e que merece ser, um dia, recolhido em verso e prosa de uma edição de papel para constar, primeiro, no catálogo da Amazon e, depois, na estante da minha casa. Quem nunca viu o samba amanhecer, vai no Bexiga para ver… Nick Carroll, Sean Doherty e Júlio Adler configuram, para mim, aquilo que mais elegante foi concebido pelo cruzamento das belas letras com as águas salgadas de uma bancada de coral… Todos dedicaram-se, em algum momento, a entender o fenômeno Gabriel Medina. O modo muito peculiar de olharem o mundo do surf e a capacidade deles de influenciarem opiniões é proporcional à facilidade com a qual, de suas análises, sejam retirados fragmentos de reflexões que são a sustentação dos famosos pré-releases.

Nick Carroll rende loas a Gabriel e ao instinto assassino do rapaz, mas assim o faz porque, para ele, competição exige um duelo de vida e morte. Ninguém parece mais apto a permanecer incólume a uma disputa do que o filho de Charles. No fim do artigo, ficamos com a sensação de que estamos diante de um astro que brilha num céu sem atmosfera…

Sean Dorothy, por sua vez, rende-se ao estado de auto-controle do vencedor do Pipe Master. Relata, com muitos detalhes, o espanto dos camaradas de circuito durante as baterias vencidas por Gabriel. O relato é muito comovente porque conseguimos ver o reconhecimento do universo anglo-saxão frente ao puro talento do menino de Maresias. Querem se comover, leiam o artigo…

Resta-nos Júlio Adler e a tese de que Gabriel Medina, além do seu talento descomunal, representa a reação dos descamisados diante do status quo… No caso, descamisados são todos aqueles que não tenham sido embalados pela indústria do surf desde antes de nascerem… Muito da nossa raiva contra a Stab Magazine pode encontrar alguma consciência no artigo do campeão carioca.

Billabong Pipe Masters 2018, Pipeline, Havaí
Medina sai embalado de um tubo nota 10 no Backdoor.

Sim, Gabriel é um caçador, admirado pela rapaziada da costa oeste e, para muitos, a concretização dos esforços de muitos brasileiros que o antecederam. No meu caso, Gabriel é, sobretudo, um surfista que olha uma parede de muitos metros para a porta de trás.

Suspeita que não seja impossível… Esquece tudo ao seu redor, pensa consigo mesmo por alguns milionésimos de segundo: será que consigo? Importa-se apenas com a crença de que seu corpo encontrará uma saída para o impasse desenhado… Campeonato? Vontade de acabar com o adversário? Sim, isso existe…Mas, e daí? Isso é consequência de alguém que emula prioritariamente consigo mesmo. Somente isso pode explicar para mim aquela onda das quartas de final. Aquela saída high line… O que foi aquilo?

Gabriel não conhece a articulação da ondulação com o vento como Carlos Leite… sequer toma ciências das especificidades técnicas do seu equipamento como lembrou tantas vezes Cabianca. Seja no frio, seja nas ondas mexidas de Florianópolis ou ainda nas condições clássicas de Pipeline; importa para o camarada saber se consegue ou não… Ver isso há dez anos ou dois dias atrás sempre me comoverá…

Fiquei feliz com o o título? Claro. Mas estou mais feliz em saber que tem um rapaz, com pouco mais de duas décadas, que diante de uma junção, ensaia uma luta de vida ou morte… Disso eu lembro quando divido com meus amigos uma linha de arrebentação qualquer… Talvez seja essa consciência que tanto atormenta o mundo do surf, pelo menos aquele que é repleto de prateleiras e acessórios… Quem no circuito tem essa circunferência? Apenas o diabo loiro do litoral norte. Ninguém mais.