O despertar de Waimea

João Guedes fala sobre o swell que fez Waimea Bay bombar na última quarta-feira.

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Público prestigia swell em Waimea Bay, Havaí

O dia…

Não sei bem o motivo, mas resolvi acordar somente quando fosse possível conferir as condições, pela internet, de Pipeline e Waimea. Começo a entrar no fuso horário do arquipélago e tem sido mais difícil a manutenção dos hábitos do começo da semana. Os raios de sol entraram no meu quarto quando recebo a primeira mensagem do dia, do meu amigo e um dos mais talentosos escritores do nosso mundinho – na minha opinião -, Julio Adler.

O texto era sintético, composto de uma palavra e um ponto de interrogação: Waimea? Essa era pergunta que não queria calar em todos os becos do Litoral Norte… Da conversa com a garçonete no ótimo almoço do Uncle Bo’s até a cerveja com os turistas japoneses na piscina do hotel, tudo parecia girar em torno das elocubrações ao redor de sua possível resposta. Não estranhei, pois, que Júlio também a fizesse.

A primeira resposta foi animada por puro desalento, sentimento provocado pelas imagens vistas das câmeras posicionadas no Litoral Norte. Storm, sem coerência, um pico e outro apontavam à calamidade de haver ondulação e mais nada. Já fazia planos de encontrar alguns camaradas durante o dia para conversar sobre o campeonato e saber as dicas deles para a próxima semana. Sentia-me, devo admitir, tomado por um humor cão.. Haver day off é uma consequência natural de qualquer etapa do circuito, mas acreditar que a baía abriria os trabalhos hoje e constatar que as imagens anunciavam, isso sim, um Shore break mixuruca… Para isso, camaradas, não existe tristeza mais intensa…

Arrumava-me para refazer o ritual dos primeiros dias. Escovo os dentes, visto-me, vejo a câmera, retiro dinheiro do cofre, como alguma coisa… Esforço-me para fazer tudo igual, a fim de gerar uma normalidade nos acontecimentos e, com isso, abandonar aos poucos a raiva dos meteorologistas, leitores de mão e videntes do futuro. Naquele momento, o fato era: Waimea não quebrou e eu deveria acostumar-me com a ideia. Restava-me a fidelidade a uma rotina bem feita para ela ajudar-me a esquecer os efeitos da frustração… À medida que completava, liturgicamente, o rito; fui tomado de assalto por uma fé, ainda que não me descreva como religioso, capaz de incutir em mim a certeza de que eu deveria conferir, com os olhos que a terra há de comer, o que acontecia naquelas sete milhas. Fiz um roteiro rápido na cabeça: primeiro, V-land; depois, Sunset; uma passada em Pipe e, por fim, Waimea. Se tudo desse errado, poderia conferir Haleiwa… Era isso, estava certo de que nada poderia dar completamente errado. Ledo engano, ledo engano…

Fabio Gouveia analisa as condições do mar.

A estrada para V-land.

Para quem nunca pisou no Litoral Norte, vale dizer que as sete milhas ora possuem campos abertos que permitem você conferir as ondas de seu carro, ora é preciso estacionar e entrar, a pé, em pequenas vielas que ligam a estrada à praia. No caso, V-land, como Off The Wall, compõem a segunda categoria. Waimea, Sunset e Laineakea, a primeira. A caminho da baía, a primeira parada é para quem vem de Turtle Bay, V-land. Logo vi que estávamos num dia ruim. Nenhum carro estacionado próximo. Um jovem de bicicleta teclava continuamente no celular, parado entre o meu carro e pequenina estrada para praia. Olhava nervoso para os lados. Enquanto arrumo as coisas, outro camarada aparece, com o rosto púbere, os dois trocam coisas entre si e seguem, cada um, o seu caminho. Ninguém olha para trás e eu fico, ali parado, ainda com o gosto do café da manhã na boca…

Advirto que não me considero, em hipótese alguma, um conservador sobre as coisas da vida e defendo, de modo incisivo, o inquebrável princípio da liberdade individual; todavia, o Litoral Norte parece-me o último lugar do mundo para o uso de drogas… O sol, a luz intensa e a brisa com cheiro de mar impõe que durmamos cedo, acordemos mais cedo ainda e utilizemos o intervalo entre essas atividades para surfar, correr ou qualquer outra coisa do gênero.

No extremo setentrional da ilha de Oahu, há necessidade de que o nosso corpo se encontre bem e pronto para os desafios a que somos chamados por essas veredas… Os meninos jovens, às sete horas da manhã… não me caiu muito bem… Aquilo, somado à íntima certeza de que Waimea se encontrava adormecida, lançou-me novamente no penoso universo da frustração. Era preciso, pois, esquecer V-land… Era preciso chegar rápido em Sunset. Somente aquela onda oceânica seria capaz de levantar-me novamente…

Ricardo Bocão prepara o corpo para encarar a session.

Quando a fama não sustenta o real.

Um dia infeliz para dois dos mais famosos picos do planeta. Senti-me envergonhado de vê-los desse modo. Os cabelos desgrenhados, acima do peso, com roupas esfarrapas… Não bastasse a ousadia de conferir aquilo que já sabia a respeito de sua atual condição, fui muito imprudente ao acreditar que eles teriam forças para reagir contra um mar tão desordenado. Sunset quebrava sem linha definida; Pipe, por sua vez, parecia, com as devidas proporções e a exagerada comparação, um beach break em dia de ressaca.
A sorte foi saber que a minha curiosidade não se encerrava em mim. Durante os vinte minutos em que fiquei na área do campeonato, à espera de ver ao menos um tubo que, frente a condições tão adversas, pudesse lembrar, de fato, Pipeline; uma dúzia de surfistas aproximavam-se e largavam as suas bicicletas encostadas nas árvore para, como eu, torcer… torcer por uma reação. Quem sabe sexta… Isso porque, amanhã, parece que teremos novamente Lay Day.

Pelo que vi, sabia que Laniakea estaria lealmente ligada ao estado de seus irmãos. Para lá, fui com o coração mais calmo. Pensava onde almoçaria, quem encontraria à tarde e como escreveria o texto de hoje para o Waves. Passo, nessa toada, por Pupukea, e paro a fim de comprar algumas coisas no supermercado. Já estava desenganado quando ouço uma conversa na fila… algo sobre 18 pés… Sobre o marido estar no mar… Sobre o trânsito para Haleiwa… Como, perguntava-me em silêncio e longe da sequencia lógica da cadeia de raciocínio, alguém estaria naquela loucura de vento e ondulação a surfar ondas de 18 pés? Com algumas barras de cereal na mão e o olhar distante, falei baixo e contido… Waimea… Waimea…

Pedro Muller também entra em cena na baía

Uma onda para pessoas comuns.

A baía de Waimea é relativamente pequena. Não se trata de um arco de areia suntuoso. A estrada, tanto em direção para Haleiwa como para Pipeline, encontra-se em declive, de modo que muitas pessoas, quando a onda aparece, preferem assistir aos acontecimentos sobre as paredes de pedras que encontram o mar. Assim que estacionei o carro na igreja, desci esbaforido para ver se aquilo era verdade… À primeira vista, umas cinquenta pessoas aglomeravam-se, com câmeras em punho, a olhar atentamente para o mar. Chego mais perto e vejo…. vejo a onda… grudada no canto, volumosa, com muito peso… Ela está lá… Waimea… Uma chuva de gotas do mar cobre-nos cada vez que a ondulação encontra a areia. Se o outside quebra na ponta direita; o Shore Break torna-se perigoso no lado esquerdo da baía. Olho, paralisado, cada drop, cada tentativa de ligar a onda mais profunda àquela do quebra-côco. Enquanto isso, alguns surfistas chegam. Tento, em vão, recolhê-los. Ninguém, até aquele momento, parecia-me familiar, embora eu seja um bom leitor de fisionomia e conheça muita gente do universo do surfe…

Um após o outro, eles carregavam pranchas enormes… Algumas velhas, outras mais ainda… Acompanho-os com o olhar e decido ir até a praia. Queria ver de perto… O mar já estava com 20 pés e a tendência era subir. Quase uma onda fecha a baía… Encontro o Broadcast do circuito, em língua portuguesa, a preparar-se para entrar. André Gioranelli e Pedro Muller juntam-se a Fábio Gouveia. Entram… Antes, converso um pouco com André. Explicam-me que 18 pés em Waimea não se compara a 18 pés em nenhum outro lugar… O volume de água… o volume de água… Todos os surfistas que vi entrarem no mar, sem exceção, são muito magros e fortes.. A remada é pesada e, aqui, não se pode dar mole para o azar. Ou você está preparado ou nem tente… Contei quinze minutos de remada incessante até a linha da arrebentação… quinze minutos, sem parar.

Um punhado de camaradas desconhecidos chega, prepara-se, alonga-se e parte. Sem mais, uma prancha vermelha; sim, somente identificamos o surfista pela cor de sua prancha; desce numa onda enorme… Quase fecha a baía. Esperei mais duas horas e não vi nenhuma outra onda daquele tamanho… Ele surfa com muita tranquilidade, ensaia uma base/lip e aponta o bico para o canto esquerdo. De uma hora para outra, entendi o poder de Waimea… Ele aproxima-se do Shore Break e quase entra no tubo que cai, em monobloco, sobre a areia rasa… eu e os vinte espectadores na areia batemos palma…

Dez minutos depois, um homem grisalho desce rapidamente pela avenida. Bocão chega, aquece, faz flexões… tudo rápido e medido. Não pude acreditar no vigor do camarada e na fome por aquela onda. Entra em silêncio no mar e vai com a mesma discrição com que chegou… O mundo passa, naquele momento, a ter outro significado… O cuidado com a alimentação, as noites bem dormidas, acredito, somam uma reserva que, mais tarde, você precisará usar… Logo mais, uma senhora, com uma prancha amarela, vara a arrebentação. As pessoas olham estupefatas enquanto alguns jovens surfistas chegam à areia, munidos de uma equipe de filmagem própria. Dão entrevistas, tiram fotos… Eu não entendo bem a cena. Tampouco os salva-vidas que permanecem atento às crianças que brincam despreocupadas na praia… Coisas da vida…

E tenho a sensação de que Waimea talvez é o templo do surfe porque, aqui, a fama e a glória não se encontram em capas de revistas, mas, sim, nas conversas animadas, no estacionamento da igreja, com os camaradas… Esse é o maior e mais intenso aprendizado dado pela Onda… Sim, de hoje até sempre, o nome da baía será, para mim, a Onda…

Ps: Enquanto volto para o Hotel, decido: preciso preparar-me para, no próximo inverno, cair numa manhã igual a essa… Sim, seria bom…