Palpite depois da sirene é mole

Tulio Brandão opina sobre os principais candidatos ao título mundial da temporada.

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Para Tulio Brandão, Gabriel Medina é o cara da vez, não só pelo surfe espetacular sem pontas soltas, capaz de vencer em qualquer onda, como pela maturidade competitiva demonstrada em 2018.

Escrevo depois da sirene da temporada de 2019 soar na Gold Coast, e, portanto, me antecipo aos críticos: palpite depois da sirene é mole.

Mas o texto não é o sobre a etapa, e sim sobre o ano. Sem floreios, como um apontador infame de barbadas, vamos aos favoritos. São palpites, que, como conselhos, se valessem algo, seriam vendidos nas melhores lojas do ramo.

Gabriel Medina é o cara da vez, não só pelo surfe espetacular sem pontas soltas, capaz de vencer em qualquer onda, como pela maturidade competitiva demonstrada em 2018. Espero um início de temporada melhor que o do ano passado. Se, somado a isso, ele repetir a mágica do ano passado, com sequência de resultados de 1º, 1º, 3º, 3º e 1º, é capaz de estar com o caneco em casa antes do Havaí.

O bicampeão carrega o favoritismo, mas não são favas contadas. Para sorte dos torcedores, ele não se descolou da massa sozinho – tem um pequeno grupo de foras de série no seu encalço, pronto para lhe roubar o título.

A questão é que não parece que Gabriel esteja disposto a reduzir o ritmo este ano.

Se o bicampeão goofy confirmar o que se espera dele, a batata quente cairá no colo dos seus adversários. Dependendo da configuração, um Gabriel com três títulos possivelmente se transformará numa entidade ainda mais blindada e competitiva. Corre o risco de deslanchar e enfileirar uma sequência slateriana de temporadas.

Em Duranbah, logo no round 3, já deu o recado aos adversários de quem manda, hoje, no tour. Marcou soma acima dos 19 pontos, não viu ninguém chegando perto, pelo menos na pontuação. No retrovisor, ele vê um Italo Ferreira na ponta dos cascos.

Italo Ferreira tem o surfe mais divertido, imprevisível, inovador e potente em praticamente todas as ondas, na opinião do colunista.

Quem deve tentar arrancar a coroa de Gabriel? Todo mundo sabe, não tem mistério. Sem ordem de favoritismo, Julian Wilson, Italo Ferreira, Filipe Toledo e John John Florence. Cada um com seu bônus, cada um com seu ponto a melhorar.

Julian começou como quase sempre começa: devagar. Caiu para o round 2 logo na estreia na temporada, passou raspando no dia seguinte e, no R3, não resistiu ao ataque agudo do garoto Reef Heazlewood. A derrota não o tira da lista.

O australiano não tem mesmo o surfe mais inspirado entre os candidatos ao título.

Mas tem uma fúria competitiva rara, uma inteligência tática privilegiada entre seus pares e um pacote robusto de surfe – a linha limpa da escola australiana, o pacote de aéreos em dia e uma inquestionável técnica de tubos, para os dois lados.

O CT é esporte de alta performance, não exibição. Na competição, aposto em Julian. E, vocês sabem, os juízes também.

Italo vem em outro barco. Seu surfe é o mais divertido, imprevisível, inovador e potente em praticamente todas as ondas. Não tem ponto fraco? Exagero.

Talvez faltem algumas sutilezas, como finais ou apresentações retumbantes frequentes em ondas como Pipeline e Teahupoo – todos sabem que ele é excelente surfista de tubos, mas precisa bamburrar nessas arenas se quiser algo.

Na minha perspectiva, embora seja disparado o surfista mais inventivo do mundo, ainda falta ao surfe do potiguar um refinamento de linhas de frontside, importante à elite. É claro que suas explosões rotacionais podem superar sem trauma qualquer arco bem desenhado de um Ace Buchan da vida, mas ter as duas ferramentas seria melhor.

De costas para a onda, ele faz transições bem mais suaves, possivelmente pelas muitas horas de voo em Baía Formosa.

Dito isso, Italo é tão fora de série que pode, tranquilamente, de uma hora para a outra, pulverizar essas supostas limitações simplesmente porque quis assim. Não tem limite.

Torço que em 2019 ele consiga maior constância de bons resultados entre suas prováveis vitórias. Se rolar este cenário, chega a Pipeline bem na fita para o título.

Em algumas ondas, Filipe Toledo é tão melhor que todo mundo que parece ter saído de outro planeta – ou outro tempo.

Estava escrito que Filipe Toledo abriria, no lugar de Medina, este texto.

Mas três 13º sucessivos o colocaram neste parágrafo, inapelavelmente. O filho de Ricardo, por um acaso infeliz ou por erros competitivos, deixou escapar um ano que, durante um bom tempo, lhe pertenceu por direito.

Ele precisa recuperar o foco para escapar do complexo de Jordy Smith, surfista que repetiu ao longo da carreira experiências trágicas de liderança ou quase-liderança e, em todas as ocasiões, viu o título escorrer por entre os dedos.

Em algumas ondas, Filipe é tão melhor que todo mundo que parece ter saído de outro planeta – ou outro tempo.

É um cara que também pode, como Italo, por seu espaçoso lastro técnico, resolver exterminar fragilidades. Deu o primeiro passo ano passado em Teahupoo, onde fez semifinal, no meio de sua avassaladora sequência de duas vitórias, um vice, uma semifinal e dois quintos lugares, entre a terceira e a oitava etapas da temporada.

Em 2019, com algum esforço e treino, pode destravar o resultado em Pipeline.

Mas Filipe não precisa ser o dono de todos os picos para ser campeão. Talvez seu maior desafio seja se manter no topo nas ondas que, em teoria, ele domina. Atravessar a Europa com décimo-terceiros é proibido. Boiar, também.

No round 3 de Duranbah, Filipe testou o coração do pai, Ricardo, até os cinco minutos finais, quando achou duas ondas e avançou com facilidade sobre Soli Bailey.

Quanto mais o ubatubense soltar seu surfe num número maior de ondas, mais se distanciará dos adversários.

O critério, ano a ano, tem achatado cada vez mais o teto de notas do surfe ordinário. Para vencer, é preciso explodir, extrapolar. E Filipe é a cara desse novo surfe.

Bicampeão, fora de série, o havaiano John John Florence resiste como o último bastião do surfista cool, um freesurfer que aprendeu a vencer.

O último favorito só está no rodapé deste texto por acaso. Bicampeão, fora de série, o havaiano John John Florence resiste como o último bastião do surfista cool, um freesurfer que aprendeu a vencer. Em ondas de verdade, ele não tem ponto fraco. É inventivo, um gênio dos tubos, surfa de borda.

Mas, em ondas fracas, sobretudo as cheias, o filho pródigo do poderoso mar de Oahu às vezes ainda vacila. Do jogo.

O round 3, em Duranbah, nos deu uma pista de sua forma, mas precisaremos de um tempo maior para identificar se JJ está realmente disposto a encarar novamente a guerra franca pelo título contra Gabriel e os demais.

Tomara que ele deseje o tri tanto quanto Gabriel. Se isso acontecer, e se Italo, Julian e Filipe resolverem entrar na briga, será uma daquelas temporadas para sempre.

PS: A regra do CT mudou, e pouca gente sabe disso. Para entender a boa novidade, que modifica completamente a dinâmica da primeira fase, leia o texto bem explicado do editor-global do Waves, Ader Oliveira, aqui.

Tulio Brandão
Formado em Jornalismo e Direito, trabalhou no jornal O Globo, com passagem pelo Jornal do Brasil. Foi colunista da Fluir, autor dos blogs Surfe Deluxe e Blog Verde (O Globo) e escreveu os livros "Gabriel Medina - a trajetória do primeiro campeão mundial de surfe" e "Rio das Alturas".