Italo em rotação

Tulio Brandão fala sobre a emocionante vitória de Italo Ferreira e a decisão da WSL de não promover as finais do Pro Gold Coast no domingo, em Duranbah, em dia de praia cheia e um swell ainda potente.

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Graças a um aéreo de rotação completa, numa onda sem qualquer potencial, nos instantes finais da decisão, o surfista mais elétrico da elite, Italo Ferreira, venceu a etapa de abertura do CT 2019, na Gold Coast australiana.

Para um título, alguns significados.

O primeiro deles, literal: graças a um aéreo de rotação completa, numa onda sem qualquer potencial, nos instantes finais da decisão, o surfista mais elétrico da elite, Italo Ferreira, venceu a etapa de abertura do CT 2019, na Gold Coast australiana.

Os outros dois, metafóricos:

– O potiguar virou do avesso uma final que estava especialmente endereçada ao americano Kolohe Andino (especialmente pela voz dos comentaristas oficiais da entidade, na transmissão em inglês, que estão errando grosseiramente em análises de torcedor. Alô, WSL, o canal é oficial, global, assistido por todos os países).

– Foi a vitória do surfista mais potente e acelerado da elite, o goofy capaz de girar no ar mesmo sem qualquer espaço, o surfista com maior RPM da história do CT, que começa, desde já, a forçar juízes a encontrarem parâmetros para novas manobras.

Como visto e revisto, Italo é um surfista de muitas rotações.

Foi a vitória do surfista mais potente e acelerado da elite, o goofy capaz de girar no ar mesmo sem qualquer espaço, o surfista com maior RPM da história do CT, que começa, desde já, a forçar juízes a encontrarem parâmetros para novas manobras.

Antes de desdobrar o dia decisivo, uma breve nota sobre a trágica decisão da WSL de não deixar as finais entrarem na água em Duranbah no domingo, dia de praia cheia e um swell ainda potente.

Na conversa de bastidores, dizem que a decisão se deu por razões contratuais, já que o evento é patrocinado pelo governo de Queensland, onde fica o palco principal do evento, Snaper Rocks. Por isso, o contrato teria exigido que a etapa fosse realizada pelo menos um dia na arena central, onde as ondas não funcionaram durante a etapa.

Os adiamentos sucessivos de quem, no Brasil, esperava a etapa começar no sábado à noite (horário de Brasília) possivelmente se deram, portanto, por impasse contratual.

Quem perdeu, claro, sempre, foram os surfistas, o surfe e seus seguidores.

As finais entraram na água, na segunda-feira australiana, num mar absolutamente infame, que não estava à altura do elenco alinhado para a disputa nas quartas. Prova disso é que, mesmo com a escalação, só em duas das sete baterias as disputas no masculino os surfistas ultrapassaram a soma risível de 12,5 pontos.

Dito isso, voltemos às finais.

Kolohe Andino viu a vitória escapar nos minutos finais.

Vi um Kolohe renovado, mais concentrado e ativo, capaz de vencer sem dificuldades um ainda intermitente John John Florence na semifinal e, nas quartas-de-final, espantar a zebra do bom estreante Seth Moniz, que provavelmente dará mais trabalho que alguns dos garotos eleitos pelo mainstream.

No confronto final, tudo indicava que Kolohe transformaria sua linha mais bem definida, de movimentos seguros, em vantagem diante do surfe nervoso do brasileiro. Mas competir com a imprevisibilidade de Italo é tarefa difícil.

A dois minutos do fim, uma marola sem vergonha, com altura inferior ao joelho, se movimentou sobre o fundo de Duranbah. Kolohe, com a prioridade, tinha nas mãos a decisão de bloquear o brasileiro, remando na onda, ou de deixá-lo tentar a sorte.

O americano de San Clemente marcou a segunda opção, imaginando que a micro-onda não oferecesse espaço nem a Italo. Enganou-se.

Muita gente criticou a decisão. Discordo. Ali, na água, mesmo diante de um cara capaz de mágicas, escolher deixar passar a marola não é absurdo. Se não fosse aquela, nos dois minutos restantes Italo teria uma chance de encontrar outra rampinha.

Diante de surfistas como Italo, depender do auxílio da prioridade para vencer as baterias é aceitar jogar na loteria.

Diante de surfistas como Italo, depender do auxílio da prioridade para vencer as baterias é aceitar jogar na loteria. Por isso é tão difícil vencê-lo.

Na onda, Italo fez o que apenas dele se espera: um milagre. Acelerou numa minúscula parede disponível e mirou na única rampa à vista, no instante certo, para encaixar um justo full rotation, de costas para a onda, e virar a bateria.

A decisão gerou controvérsias, sobretudo pela comparação com o aéreo encaixado por Andino na onda anterior. Foi uma decisão bem difícil, concordo, e poderia ter ido para qualquer lado. Mas prevaleceu o grau bem maior de uma rotação completa, na comparação com o aéreo mais limpo, mas com meia rotação, do americano.

Na opinião do colunista, John John Florence esteve melhor que o esperado, dada a gravidade de sua contusão ano passado, mas ainda sem a intensidade que lhe deu dois títulos mundiais.

De todo modo, o debate sobre os critérios vai esquentar nesta temporada, com juízes obrigados a encontrar uma nova escala para manobras aéreas com variação de base, como as executadas por Italo nas duas últimas baterias, e, ao mesmo tempo, valorizar o velho e bom carving potente, como a excelente snap, com bordas enterradas, executado por Conner Coffin em sua bateria de quartas-de-final.

A onda de Conner não foi suficiente para lhe dar a virada, nas quartas-de-final, contra John John Florence. Discordei do resultado, mas deixo o desafio de pontuar de forma decente movimentos de décadas tão distintas para os juízes.

John John, aliás, esteve melhor que o esperado, dada a gravidade de sua contusão ano passado, mas ainda sem a intensidade que lhe deu dois títulos mundiais. A ver.

Jordy Smith e Wade Carmichael, dois legítimos representantes do surfe de borda, pararam na semifinal.

Jordy, filho das ondinhas de Durban, na África do Sul, driblou mais uma vez seu peso e altura para brilhar em marolas. Eliminou um dos favoritos, Gabriel Medina, e só parou diante da fúria de Italo – para desespero dos comentaristas da WSL.

Jordy, filho das ondinhas de Durban, na África do Sul, driblou mais uma vez seu peso e altura para brilhar em marolas.

Apesar dos bons momentos no dia decisivo, Jordy ainda está fora da minha lista de favoritos à temporada. Nos dias de onda do evento, ele não brilhou.

Já Wade, que parou diante de Kolohe, esteve entre os melhores da etapa. Surfou limpo, rápido, com muita pressão e a borda enterrada. O australiano, estreante do ano em 2018, caminha para se consolidar como potência nesta temporada.

Na corrida de 2019, Gabriel, que não encontrou equilíbrio para seu surfe nas pequenas ondas das finais, esteve fora de série especialmente até o round 3. Julian Wilson, por sua vez, teve estreia apagada, como se não quisesse disputar nada, embora eu não acredite nisso. Filipe Toledo, um dos favoritos destacados na Gold Coast, fez uma bateria lenta contra John John e não conseguiu virar, como em outras fases, no fim.

O circo, agora, segue para Bells, palco da primeira vitória da vida de Italo, ano passado, para testar a merecida liderança do surfista mais elétrico e inovador na elite nas largas ladeiras da onda de Victoria. Alguém é capaz de pará-lo em direitas?

Tulio Brandão
Formado em Jornalismo e Direito, trabalhou no jornal O Globo, com passagem pelo Jornal do Brasil. Foi colunista da Fluir, autor dos blogs Surfe Deluxe e Blog Verde (O Globo) e escreveu os livros "Gabriel Medina - a trajetória do primeiro campeão mundial de surfe" e "Rio das Alturas".