Drama e glória em Teahupoo

Tulio Brandão fala sobre o show de tubos de Owen Wright, Gabriel Medina e outros Tops da elite mundial nas ondas de Teahupoo.

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Owen Wright venceu o Tahiti Pro em incrível jornada nas ondas de Teahupoo.

A vitória de Owen Wright foi o irretocável final de uma belíssima história de dois dias.

O australiano venceu Gabriel Medina depois de uma incrível jornada esportiva no palco perfeito do esporte, Teahupoo. A onda do Taiti, mais uma vez, entregou tudo o que se espera dela: desafiar os limites individuais dos melhores surfista do mundo.

Neste jogo cruel de drama e glória, que combina técnica, leitura de onda e exposição pública de coragens e medos, Owen e Medina estiveram acima dos adversários.

Owen é, para mim, uma das melhores faces do verdadeiro surfe australiano. Tem uma linha e uma suavidade irretocáveis em todas as condições, não puxa o bico em nenhuma circunstância e domina os fundamentos do esporte. Não está mais bem posicionado no ranking, talvez, por seus conhecidos apagões competitivos e por, muitas vezes, perder pontos por se manter fiel, mesmo em ondas ordinárias, a uma linha de surfe quase erudita.

Desde 2014, Gabriel Medina só não esteve presente em uma final, em 2016, quando perdeu nas semifinais de forma controversa.

Teahupoo, no entanto, não tem nada de ordinário. A onda parece esperar pelo conjunto de qualidades do australiano. Vice em 2018 e campeão em 2019, Owen parece ter sido escolhido pelos deuses taitianos para disputar, com o amigo e rival brasileiro, o protagonismo naquela onda, sobretudo em dias mais potentes.

(Há outro protagonista óbvio, que o infortúnio de uma contusão nos impediu de ver em ação este ano no Taiti: o havaiano John John Florence. Como seria bom vê-lo, em forma, nesses dois dias mágicos de surfe…)

Gabriel esteve em seu habitual ritmo vencedor no Taiti durante toda a etapa. Seu vice se soma a um extraordinário histórico no pico – desde 2014, ele só não esteve presente em uma final, em 2016, quando perdeu nas semifinais de forma controversa para o rival Florence. Foi o grande destaque do primeiro dia de ondas boas, quando tirou a primeira nota máxima do ano com um tubo assustador.

No segundo dia, com um swell um pouco mais esparso, sujeito a calmarias e períodos com poucas oportunidades, Gabriel manteve o controle das baterias, ainda que tenha feito, por conta da instabilidade das condições, tanto nas quartas quanto nas semis, as médias mais baixas das fases – ambas na casa de 11 pontos. Nada que assustasse, uma vez que venceu por boa vantagem as duas baterias.

Medina e Wright travaram batalha emocionante na final.

A final entre Owen e Gabriel é uma daquelas baterias que poderiam não ter fim. Se o relógio continuasse a correr, os dois surfistas se alternariam na ponta, onda a onda, desfilando todo o pacote técnico necessário ao tubo de Teahupoo.

Desta vez, quando a sirene tocou, a vantagem estava com Owen. Merecidamente. O australiano foi o melhor surfista do dia decisivo.

Gabriel cometeu o erro recorrente de quem estava com a prioridade, de esperar a segunda onda da série, e viu o australiano virar nos minutos finais mesmo sem a preferência. Acontece. Ali é realmente difícil fazer a leitura de onda antecipada, porque a parede surge inesperadamente quando a vaga encosta na bancada.

O dia que marcará a temporada, a esperada terça-feira de ondas difíceis e poderosas, foi uma baita aposta acertada da WSL. É importante elogiar chamadas certeiras.

Início da etapa foi marcado por ondas pequenas.

Depois de um início de evento infame, em ondas medíocres, a entidade esperou o swell certo para colocar, no primeiro dia, 24 baterias na água, das fases de 32 e de 16, e, no segundo dia, as demais baterias do evento. O mundo viu um espetáculo de verdade, com dramas e glórias expostos quase na mesma medida.

Os holofotes da glória acenderam para alguns surfistas prontos para a onda.

Adriano de Souza, numa das melhores baterias da vida, contra Italo Ferreira, nos fez lembrar do maior exemplo de determinação em benefício do talento da história do surfe. Deficiente nesta onda no início da carreira, ele, como em tantas outras arenas, mergulhou em treinos intensivos até prosperar. Assim, venceu em Pipeline, assim venceu em Bells, assim fez bonito em Teahupoo.

Não é seu primeiro quinto lugar na etapa do Taiti na carreira, mas é, para mim, um resultado mais importante que algumas de suas vitórias.

Adriano de Souza derrotou Italo Ferreira em uma das baterias mais eletrizantes de toda a prova.

Jordy Smith, o sul-africano que acertou o passo em tubos de costas para a onda ao se mudar para Oahu, eliminou inesperadamente um reconhecido mestre nessas arenas, Julian Wilson. Só parou diante de Owen, na semifinal. A evolução nos tubos e a constância não vista em outros anos o colocam numa posição forte na temporada.

Jadson André é, faz tempo, um grande surfista de tubos. Quem não lembra de uma nota quase perfeita em Pipeline, num dia grande e difícil, quando deixaram de lhe dar um 10 perfeito por birra? Pois é, o guerreiro continua na luta por um grande resultado nessas arenas. Desta vez, eliminou com autoridade Kanoa Igarashi e Deivid Silva, antes de parar, nas quartas, para Owen. Nas oitavas, fez o que talvez tenha sido a melhor bateria de sua vida, com merecidíssimos 18,23 pontos de 20 possíveis.

Caio Ibelli estava ansioso para competir em Teahupoo. Enquanto uns temiam a possibilidade de lidar com a esquerda taitiana, o surfista de São Paulo lutava pela possibilidade de mostrar seus recursos técnicos, além da atitude, claro, nos dias mais agudos. Conseguiu a oportunidade: sua virada em cima de Conner Coffin e o show diante de Jack Freestone também entram pro rol das baterias para a história.

Seth Moniz, rookie que carrega o espírito havaiano, confirmou as expectativas em torno de sua performance em Teahupoo com um justo terceiro lugar.

Jadson André chegou às quartas com performances sensacionais nos canudos.

Peterson Crisanto e Deivid Silva, embora não tenham ido longe na prova, não puxaram o bico e deixaram claro que ambos tem espaço para evoluir muito naquela onda.

Do outro lado do tubo, os dias mais intensos de Teahupoo expuseram alguns surfistas a dramas particulares, em alguns casos bastante sensíveis.

Filipe Toledo, embora tenha alcançado a nona posição e, com os pontos, a liderança da temporada, aparentou não estar tão disposto a testar seu limite nos dias mais agudos. O prodígio de Ubatuba não pode se esquecer que seu talento raro, único, é ferramenta suficiente para, com treino, dominar amplamente também essas ondas.

Filipe pode ser campeão sem dominar Teahupoo e Pipeline, porque sobra em muitas outras ondas. Mas seu título viria de modo bem mais confortável e legítimo depois de se provar em picos de consequência, em dias realmente potentes.

Caio Ibelli também deu show nos cilindros de Teahupoo.

Willian Cardoso expos seu obstáculo, ao não conseguir surfar a bateria. Numa atitude sincera e verdadeira, falou abertamente nas mídias sociais sobre o medo e, mais importante, sobre o esforço que fará para construir seu futuro naquela onda.

Há um caminho já trilhado por gente como Adriano de Souza e Mick Fanning, dois campeões mundiais que no início da carreira sofreram em ondas de consequência: suor e treino. Poucos surfistas nascem prontos para isso. Mesmo Kelly Slater, que este ano esteve apenas regular no Taiti mas é reconhecidamente um mestre em arenas mais agudas, gastou muitas temporadas em tubos para alcançar a excelência.

Com o fim de Teahupoo, a temporada entra na perna de manobras progressivas, de alta performance, com as etapas do Rancho, da França e de Portugal, antes do encerramento em Pipeline.

O vice no Taiti aproximou, como muitos esperavam, o atual campeão do mundo dos líderes. Ele pulou para o quarto posto, a menos de 2 mil pontos do líder, Filipe, com etapas em que tem histórico de dominância até o fim do ano.

O histórico é bastante favorável a Gabriel, mas a temporada, por todas as circunstâncias, ainda está absolutamente aberta. Filipe, Italo e Jordy são, para mim, na ordem, os grandes adversários. Kolohe corre por fora, embora esteja no terceiro posto. Precisa, antes de lutar pelo título, ser capaz de vencer uma prova.

Agora é hora de ligar as máquinas para o treino no Rancho. Acho que podemos esperar por manobras inéditas nas ondas sempre iguais de Lemoore.