Astral nos Açores

Fabio Gouveia destaca o clima de confraternização do Mundial Master nos Açores, Portugal.

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Fabio Gouveia em ação no World Masters Championship.

Conhecer a ilha de São Miguel, no arquipélago português dos Açores, não poderia ser em melhor oportunidade. Recebi o convite para disputar o Masters 2018 cerca de 5 meses antes da data para a realização do evento, no fim de setembro.

Com jejum de 6 anos desta prova (o último havia sido em 2011, no Arpoador), lá estavam em disputa mais uma vez alguns dos legends do surfe mundial. O surfista português Rodrigo Heredia, ex-surfista profissional, agora empresário e um dos proprietários do resort na praia de Santa Bárbara, foi o responsável, junto com a WSL, por reunir a galera neste pico.

Açores, pra mim, já era um lugar especial, pois foi lá que meu filho Ian venceu um QS que lhe ajudou a ingressar no CT, logo seria muito gratificante caso vencesse por lá. E assim, me preparei para a prova. Dois meses antes, havia começado um trabalho funcional na academia The Wave e pilates no espaço Estação Corpo, em Floripa.

Fabinho antes da semifinal contra o australiano Dave Macaulay.

Estava acima do peso e consegui emagrecer cerca de 3 a 4 quilos. Melhor que a perda do peso talvez tenha sido a motivação e melhoria na força, como também no cárdio. Estava me sentindo bem e meu intuito era vencer o evento.

Tanto foi que, mesmo perdendo feio na primeira bateria contra Jake Paterson, sabia que poderia conseguir. Havia ficado com raiva por ter perdido aquela bateria sem ter condições de mostrar e me divertir em meu surfe, pois simplesmente não achei nem onda regular e saí na “combi”.

Aliás, aproveito o trocadilho da combi para relatar nossa experiência turística em Açores. Digo “nossa” porque aproveitei a oportunidade para levar minha esposa e o ritmo era esse, treino, bateria e ilha tour. Com os passeios, a derrota era diluída e foi assim que mantive o astral. E em um lugar daquele, não tinha como estar com o astral baixo, mesmo sem ter o resultado que gostaríamos. Falo no plural porque muitos estavam na expectativa do bom resultado, mas no geral, a satisfação de estar competindo no Masters ficava acima de tudo e isso era nítido nas conversas em bastidores.

O evento era dividido em duas categorias – Masters, com idade entre 45 e 55, e Grand Masters, com idade acima dos 55. Em ambas, todo mundo surfava em três oportunidades e os 8 melhores em cada avançavam para as fases finais.

Bom, pelo menos era assim que me parecia e tinha em mente que, por ter perdido a primeira, caso vencesse as duas disputas seguintes estaria na fase seguinte. Ao final passei por Derek Ho e Damien Hardman, e me classifiquei para as finais em quinto lugar.
E aproveitando o embalo, já relato minha participação. Após as duas ultimas disputas com meus ídolos, foi a vez de surfar contra Matt Hoy, australiano metaleiro com quem disputei grande parte do circuito mundial.

Fabinho fez uma bela campanha e terminou em terceiro lugar.

Matt era um dos caras que estavam surfando muito, assim como Beschen, Jake, Damien, Luke Egan, Sunny Garcia e Dave Macaulay. Aliás, Dave estreou com derrota para João “Dapin” Alexandre, único surfista português em prova. Dapin também fez o circuito em minha época e quebrou na bateria contra Dave, mas suas disputas seguintes não foram boas e o gajo ficou fora das finais.

Já Dave, que também perdera um outro confronto, classificou-se pela soma de notas e nas finais foi emplacando um a um. E o cara que é conhecido por Mister Brasil, por ter vencido 4 eventos da WSL em nosso país, tirou meu sonho de vitória. “Maca” (apelido de Dave) começou na frente com uma onda ótima, e mesmo eu estando tranquilo e a toda hora buscando o resultado, as coisas não encaixavam para meu lado.

Fabinho e Elka reunido com outros legends.

Competitivo como sempre, Dave tinha o faro das ondas. Aonde o cara ia, a onda vinha pra ele. E foi assim em todas as baterias das finais, quando passou por Jake Paterson nas oitavas, e na grande finalíssima, quando venceu Beschen. A competitividade e constância dos anos 80 e meados de 90 falaram mais alto e foi incrível a vitória do australiano.

Aquilo me fez lembrar o quanto técnico e competitivo era o pai da Bronte Macaulay (atleta do CT), que não havia tido o titulo de campeão em sua época atuante, mas que agora era recompensado merecidamente com o título de campeão mundial master. Neste evento, teve também pela primeira vez a participação das mulheres. Frieda Zamba e Layne Beachley engrossavam o caldo. Pam Burridge, Jodie Cooper, Pauline Menczer e Rochelle Ballard também. Como foi bom vê-las em forma e alegres por estarem ali.

Mais que merecido, e era incrível ver, por exemplo, como estava Frieda Zamba. Competitiva, como sempre, e ótima fisicamente. A final foi entre Layne e Rochelle, prevalecendo a força das manobras da Layne, que tinha um torcedor especial, seu marido e integrante da icônica banda INXS, Kirk Pengilly.

Na Grand Master, meus maiores ídolos. Ops, acho que estou esquecendo de alguém da galera mais “jovem”. Como pode? Tom Currem! Meu ídolo máximo! Bom, master Tom apareceu no evento com seus protótipos de skimdoards portando as S-Wings fins e foi com elas que surfou todos os dias no free surfe e em suas baterias. Faz tempo que não vejo Tom com uma prancha normal, ou pelo menos, sempre que o vejo, ele está com seu “sonrrisal”.

Impressionante sua busca por um equipamento diferente. Mas o cara se diverte e digo que está muito veloz quando aquilo encaixa. Bom, no evento, ela não encaixou. E se encaixou, não foi páreo para seus adversários. De qualquer forma, creio que ele não estava muito aí para resultados, e sim imprimir um surfe diferente em seu brinquedo preferido. Como é incógnito esse meu ídolo!

Dave Macaulay foi o algoz do brasileiro na semifinal e garantiu o título do evento.

Voltando, agora sim, aos Grand Masters, foi muito bom rever Cheyne Horan, Rob Bain, Gary Elkerton, Terry Richardson, Glen Winton, pessoas que, além de ídolos, eu simpatizava muito. Curiosidades sobre o rip da galera e o que tinham feito para se preparar para a prova? “Kong” bateu o recorde e diz a lenda que emagreceu 25 kg. O cara devia estar gigante, mas ali se portava normal para sua idade e quantidade de geladas que tomava durante o evento.

A única coisa que atrapalhou Gary talvez tenha sido o volume de sua prancha. Mesmo perdendo peso, creio que o australiano levou pranchas finas, apesar de lindas, para sua estatura. Pegou quase nada nas baterias, mas se tivesse pego, com certeza teria explodido, como era de seu costume.

Glen, o Mister “X”, também perdeu peso, 14 kg. Atualmente trabalhando também com Uber na Austrália, disse que o Master o fez ter mais espaço entre o bucho e a direção do seu veículo. Muito bom! Caí na risada com ele. E Glen estava solto na vala, pegou um belo tubo e se apresentou muito bem. E bem também estavam os irmãos Ho, Michael e Derek, e o waterman Buzzy Kerbox, como também Hans Hedmann. Quantos ídolos juntos!

Gary Elkerton e Matt Hoy em clima de festa.

Foi muito bom ver também Simon Anderson, o criador das triquilhas ,surfando soltinho.
O neozelandês Ian Buchanan, que era o detentor do título, pois havia vencido no Arpoador em 2011, não conseguiu repetir a atuação. O vi surfando bem no free surf, mas não acompanhei suas baterias. Foi sentida a falta do australiano Nathan Webster, que também havia vencido no Rio de Janeiro, na categoria Master. Aliás, algumas ausências foram sentidas. Barton Lynch, Brad Gerlach, Occhilupo, Martin Potter, Shaun Tomson, Rabbit Bartholomew, Mark Richards (este já não compete mais), dentre outros que foram convidados e não puderam comparecer.

Isso fez com que alternates ingressassem na prova. Foi o caso de Rob Bain, que também merecera o convite, mas que agora tem cadeira cativa, pois foi o grande campeão dos senhores máximos. “Bob” bateu seu também ídolo Cheyne Horan, com quem também travou um belo duelo em bateria classificatória.

Gostaria de parabenizar e agradecer imensamente ao Rodrigo Heredia e a todos os evolvidos por nos proporcionar imensa alegria nesse reencontro. Espero que esse evento se perpetue, com mais convidados merecedores, tanto do país anfitrião e de outras nacionalidades, pois poderíamos ter ali Daniel Friedmann, Picuruta, Ribas, Teco, Rosa…

Aliás, muito em breve, essa galera de peso que recém se aposentou ou está se aposentando (Mick, Parko, Slater) sentirá falta da competição. Quem sabe teremos, em um futuro próximo, um circuito com algumas poucas etapas para nos deliciarmos com tantos ídolos e tanta história? Sou suspeito pra falar, mas fico na maior torcida!

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