Domingo dramático

João Guedes narra os momentos mais marcantes do domingão no North Shore havaiano.

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Miguel Pupo perde e está fora do Championship Tour.

Antes do julgamento, os fatos

O round 2 encontrou, no domingo, um dia de sol, água verde. As ondas, confesso, surpreenderam e algumas delas estavam lindas. A praia, por usa vez, somente começou a encher por volta das onze horas da manhã. Embora, a esse termo, já soubéssemos que Gabriel estaria na terceira fase, bem como Julian, muitas coisas aconteceram até que a noite caiu.

As derrotas prévias

Em primeiro lugar, as derrotas de Jadson e Dantas apontavam-lhes o caminho do QS. O curioso é que não houve comoção, não houve reação contra os acontecimentos. O dia corria tranquilo, sob uma brisa agradável… E lá estavam os camaradas fora circuito de 2018. A tarefa de retornar não é simples, pois exige patrocínio sólido para arcar com as despesas da divisão de acesso. Espero que a força de vontade encontre resguardo em um orçamento capaz de dar conta do recado. No meu caso, eu sinto muitíssimo a saída de Jadson, por quem tenho muita admiração, sobretudo, pela sua incansável energia. Mas a vida, tal qual o Circuito, tem dessas coisas… Os acontecimentos correm e, contra isso, pouca ou nada coisa podemos fazer.

A derrota, entretanto, não é exclusividade dos brasileiros. Quando soou o final da bateria de Ezekiel Lau, a família do camarada somava-se a uma “entidade” havaiana que, de um lado para o outro, andava aos gritos, com uma cabaça sobre a cabeça e plantas verdes violentamente agitadas na toada de sua dança. Todos ali, à minha frente, com os uniformes do camarada. A torcida pelo filho pródigo, contudo, não passava de quinze pessoas… Como ocorreu com Jadson e Dantas, a tristeza do outro não pareceu comover a praia ou impor uma reação enérgica frente à leseira profunda dos mares do Pacífico…

O curioso é que carreiras estavam em jogo. Mesmo que estivéssemos diante de um aparato característico do CT, no Litoral Norte e numa decisão de título, era impossível não olhar os acontecimentos como se eles estivessem muito distantes da alegria daquele camarada que acabara de pegar a onda da vida em OTW. O surfe competição tem uma regra própria, cujos sentimentos provocados por ele nem sempre se relacionam com aquilo que nos levou, meninos, a tentar ficar em pé sobre as ondas.

Ian Gouveia foi a surpresa do dia.

Onde há derrotas, há também vitórias

Julian surfou muito bem… e venceu com autoridade. Cercado por crianças, e ao lado da sua mãe, de câmera em punho e um chapéu de guarda-chuva, o rapaz andava com sorriso largo pelas areias de Pipeline. Acredito mesmo que a popularidade de Julian concorre, no universo anglo-saxão, àquela desfrutada por Florence. Nada que não sabíamos antes, mas foi curioso assistir-lhe em ação e constatar que sobre ele se impõe uma enorme expectativa de levar o caneco… Se não der neste ano ou em breve, ele corre seriamente o risco de tornar-se uma espécie de Taj. Se isso acontecer, é possível que lhe seja mais difícil de sustentar aquele ar de leveza… Como disse, o surf competição tem dessas coisas..

A surpresa do dia, no entanto, foi Ian Gouveia. Assistia ao campeonato junto de Antônio Ricardo e Bruno Bocayuva. Era visível a atenção de todos na performance do menino. Ele não desapontou e, sem que ninguém se desse conta, conseguiu fazer com que acreditássemos ser possível ele realizar a tarefa a qual se propôs, em Pipe. Foi bonito ver a mãe a correr solitária para cumprimentá-lo. Ambos se abraçaram e acabaram por rolar no mar juntos, frente aos olhares incrédulos da rapaziada ao redor…

O dia avançava com as decisões particulares dos competidores, as quais sempre me provocavam certa comoção. Imaginem… O camarada tornou o surf uma profissão e alcançou um patamar em que essa escolha deu frutos. De repente, uma bateria e tudo se torna, mais uma vez, incerteza. Há muita coisa em jogo quando a decisão é, ou não, a permanência no grupo dos trinta e dois… Quando revejo o dia de hoje, a cena mais comovente foi, certamente, ver Miguel Pupo por cerca de vinte minutos, após o término de sua bateria, a boiar sozinho, bem próximo a OTW. Via ele a furar as ondas enquanto eu buscava na areia o grupo com o qual ele estava. Nada… Um tempo depois, Miguel vem da direção ao palanque… Bato palmas sozinho… nada altera o humor da plateia que nem repara no olhar para o chão do pai recente que, declarou dias atrás, estar na disputa pelo seu emprego.. Somente o vi outra vez, carregado com quatro pranchas sob os braços a seguir a sua mulher, com a filha no colo, em direção da sua casa… Que ele tenha força… e aprenda algumas lições para retornar em 2019 mais forte.

John John Florence vence duelo polêmico contra Ethan Ewing.

O começo da dúvida

Florence é chamado. A praia aplaude, as crianças correm e, pela primeira vez, alguns espectadores ficam em pé, na beira da água. O começo da bateria é dele. Pega logo duas ondas, um tubo mais profundo. A contenda parece ganha, uma vez que Ethan boia mais da metade da bateria… De uma hora para outra, o rapaz inicia sua rotina. Pareceu-me bastante seguro no controle das suas emoções. Foi nas ondas certas e manteve-se calmo diante do início da bateria.

No meio da contenda, as caixas de som são desligadas. Ouvia-se muito mal o locutor e, consequentemente, as notas dos competidores. Há uma inquietação na areia… Sem muita referência e com o sinal do celular abaixo da crítica, juntei-me a um grupo de americanos que acompanhava atentos o site da WSL. Como? Não sei… O fato é que fiquei ali, sorriso no rosto, apenas para conferir cada uma das notas…

Quando a virada parecia impossível, Ethan pega uma onda que deixa todo mundo, na areia, certo de que a contenda estava aberta. Já era possível ver os brasileiros a gritar à medida que os havaianos, sobretudo aqueles ao redor da família de Lau, botavam as mãos na cabeça… Aqui, vale lembrar que vimos essa onda quebrar à nossa frente e, por algum motivo, não temos uma outra tomada de câmera, somente aquela angulada… No caso da onda mais pontuada de Florence, isso não acontece. Por isso, acho que temos a sensação da equivalência das notas.

Ethan, então, pega a última… tubo… Um camarada do meu lado diz: não é possível que não darão a virada… não é possível… Quando sai a nota, aquela plateia de sinfonia, contida, sem expressar muitas emoções, solta uma vaia, alta e longa.

Vou até o grupo de fotógrafos que estava diante da casa da Billabong. Adriano, Antônio Ricardo e mais um grupo relevante de gente que respira surf… incrédulos… Florence passava uma bateria que não tinha, pelo menos para quem estava na praia, passado. No hotel, revi a disputa. A minha impressão permanece a mesma. Busquei uma sobriedade do julgamento, uma tentativa de encontrar um equilíbrio que explicasse o acontecido… Há muitas variantes, é verdade, mas Florence não venceu. Se foi por pouco ou por muito, nada disso importa. Há uma certa mácula nesse campeonato e a WSL terá, mesmo que não deseje, de responder pelo acontecido.

Gabriel Medina derrota Josh Kerr em confronto com notas confusas.

O desdobramento da celeuma

Durante quinze minutos, ninguém conseguiu acompanhar a bateria de Gabriel, acho que nem mesmo ele. O vento tinha entrado, os tubos rarearam. As pessoas vinham do palanque e diziam que ninguém acreditava no resultado da bateria anterior. Isso inflamou os ânimos. Era preciso ver, passo a passo no computador, a bateria… Enquanto isso, as ondas corriam e as manobras de Gabriel rodavam no dois alto. Acho que somente percebemos o risco, todos ao meu redor, quando faltavam 12 minutos para acabar.

Tubo nervoso para Pipe, com drop no risco. Lembrou-me o round um, em que ele fez algo parecido, com uma nota maior. As coisas pareciam desajustadas, seja para Gabriel, seja para Kerr. Não havia parâmetro. É possível que algo tenha acontecido na cabeça dos juízes em algum momento e, depois de uma suspensão do julgamento, eles tentaram acertar as coisas. Daí a completa falta de relação das primeiras notas dadas a Gabriel, que acho equivocadas diante das condições, com a última.

No meio da confusão, Ítalo corria solto na sua bateria, com direito a trezentos e sessenta para Backdoor. Eu, por minha vez, comecei a achar que, se o nosso menino levar o título, contra tudo e contra todos, ele dá um enorme passo para a história. A fim de que isso não ocorra, Florence terá de surfar mais do que hoje e vencer as suas baterias sem deixar dúvidas. Aliás, os dois devem vencer sem deixar dúvidas… porque, caso contrário, acho que a WSL fará o favor de deixá-las em nós…