O legado de Carroll

Kemel Addas Neto descreve os feitos do bicampeão mundial Tom Carroll.

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Tom Carroll, JapãoEye Symmetry
Em 15 anos de carreira profissional, Tom Carroll transitou sempre entre os dez maiores surfistas do mundo.

São poucos surfistas que podemos chamar de deuses do surfe. Mais do que campeões mundiais ou excelentes competidores, eles estão acima de tudo. Com muita alma, estilo e o principal: trouxeram algo muito diferente e que influenciou eternamente o jeito de surfar de toda uma geração.

Não há dúvidas que alguns nomes como Gerry Lopez, Kelly Slater, Shaun Tomson, Mark Richards e Tom Carroll estão entre esses deuses. Mas escolhi falar de um deles, Mr. Tom Carroll. Já escutou a expressão “power surf”? Pode ter certeza de que Carroll foi um dos principais responsáveis por isto.

Escrever um texto sobre um dos maiores surfistas da história é uma honra e confesso, Tom é meu ídolo máximo no esporte. Australiano nascido em 1961, em Sidney, ele começou a surfar aos 8 anos em Newport e desde muito cedo já acumulava títulos nacionais em seu país.

Brian Bielman
Tricampeão do Pipe Masters, Carroll conquistou o respeito de todos no North Shore de Oahu.

Em seu primeiro inverno havaiano, o aussie já mostrava que seria fora de série em Pipeline, parecendo ter intimidade com o pico em muitas temporadas.

Logo primeira sessão, ele dropou reto e fez uma curva incrível, se colocando com perfeição e muita profundidade no tubo, saindo depois de uma baforada incrível. Uma pintura com imagens eternizadas pelo renomado filmmaker Greg Wiver.

Normalmente as pessoas apontam nomes que possivelmente tiveram influência em seu jeito de surfar, mas quantos realmente mudaram a forma de surfar de toda uma geração e deixaram um legado?

Posso dizer com segurança que foram poucos surfistas que tiveram uma real influência no jeito de surfar e deixaram uma marca muito forte. Tom Carroll foi um deles. Tom tinha um estilo com manobras muito fortes, um bottom turn inconfundível, além de ter mudado completamente a maneira de surfar de backside, angulando a prancha como nunca ninguém havia feito antes. Manobras sempre absurdas, explosivas e com arcos enormes.

Com uma performance incrível, ele puxou e influenciou uma fila de ótimos goofies, conhecidos nos anos 80 como “The Goofy Revolution”. Este grupo nasceu junto com o primeiro titulo mundial de Tom, quebrando uma hegemonia de surfistas regulares que já durava quase dez anos. Assim nasceram vários campeões mundiais como Damien Hardman, Barton Lynch e Mark Occhilupo.

No começo de 1983, durante o Stubbies Pro em Burleigh Heads, Austrália, após ter vencido quatro títulos mundiais consecutivos, Mark Richards havia sido questionado se estava confiante para o seu quinto título. Ele parecia saber o que vinha pela frente e respondeu: “Quero muito vencer, mas vejo o garoto Tom Carroll como maior favorito ao título deste ano e por muitas temporadas.”

Bruno Lemos / Lemosimages.com
Tom Carroll é o dono de performances inesquecíveis em Pipeline.

Depois de uma meteórica ascensão no ranking da ASP, começando em 24º, depois 17º e 10º, um ano antes do seu primeiro titulo mundial Tom já acabara em terceiro. Ele venceu os mundiais da ASP em 1983 e 1984, e durante 15 anos de sua carreira profissional sempre transitou entre os dez maiores surfistas do mundo.

No começo dos anos 60, o californiano Phil Edwards, que era regular, surfou Pipeline e quebrou todos os paradigmas da época sobre a mítica onda havaiana. Logo no ano seguinte, Butch Van Artsdalen foi o primeiro o goofy surfando com excelência e angulando sua prancha de forma que ficasse mais dentro do tubo.

Este estilo e angulação foram se aprimorando e poucos anos depois, em 1971, surge o eterno “Mr.Pipeline” Gerry Lopez, que criou um legado incrível de nomes como Rory Russell e Tom Carroll.

Em seu primeiro inverno no Havaí, Tom foi impressionante, com uma performance comentada e fotografada por todos! Sua primeira sessão em Pipe foi descrevida por Shaun Tomson como “impressionante”, e ele estava absolutamente certo! Carroll entre 1979 e 1987 já havia feito três finais.

Bruno Lemos / Sony Brasil
Como um surfista completo, Tom Carroll também é um destemido big rider.

Mas foi em 1987, em condições épicas, que Tom teve uma atuação irretocável. A cada bateria ele atropelava seus oponentes de forma incrível, destruindo as onda e pegando tubos muito profundos, nada comparável até aquele momento da história em Pipeline! Ele estava arrasador, quando infelizmente veio a triste e chocante notícia da morte de sua irmã em um acidente de carro na Austrália.

Tom disse ao seu pai por telefone que queria voltar para o enterro da irmã, mas o velho sabiamente respondeu: “Fique aí, pois sua irmã quer que você vença o campeonato”.
E foi o que Tom fez, surfando a semifinal e final em um nível altíssimo, considerado por muitos especialistas em Pipe como a melhor performance de todos os tempos.

Mas Tom não parou por aí, venceu mais duas vezes, em 1990 e 1991, este segundo também com uma performance “fora da curva”, com bottom turns muito fortes e rasgadas no crítico em uma final eletrizante contra Derek Ho (que era seu maior oponente em Pipe). Carroll venceu a bateria e sagrou-se campeão do evento pela terceira vez, entrando para a história como um autêntico Pipe Master.

Sua carreira também é conhecida por representar o primeiro contrato milionário assinado com seu patrocinador da época, a Quiksilver, que continua o patrocinando até hoje.

Hoje em dia Tom Carroll, aos 57 anos, continua surfando muito bem. Recentemente ele esteve no The Ranch e destruiu as ondas artificiais como se fosse um menino! Com seu inseparável parceiro Ross Clarke-Jones, ele também faz tow-in em ondas gigantes.

Tom deixou um dos legados mais importantes para o surfe, que será lembrado pela eternidade! Obrigado!

Filmes em que Tom Carroll aparece no seu melhor momento:

The Performance 2
Mad Wax
The Hole
All Down the Line

Finais em Pipeline

1987
Tom Carroll
Ronnie Burns
Derek Ho
Burton Lynch

1990
Tom Carroll
Jeff Booth
Ross Clarke-Jones
Richard Marsh

1991
Tom Carroll
Derek Ho
Glen Winton
Damien Hardman

Kemel Addas Neto
Designer de moda, fotógrafo e artista plástico há mais de 35 anos, fez parte do primeiro staff da revista Fluir e atualmente é o curador de arte da The Board Trader Show. Surfa há mais de 40 anos, possui uma forte conexão com a Califórnia (EUA), com diversas temporadas na bagagem, e é dono do maior acervo de filmes de surfe do Brasil.