O ícone Daniel Friedmann

Kemel Addas Neto relembra a trajetória vencedora do surfista e shaper Daniel Friedmann.

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Daniel Friedmann e seu estilo clássico durante viagem para Maldivas.

No final dos anos 1960 surgia uma geração que mudaria os rumos do surfe no Brasil, além de influenciar vários surfistas ao longo da década seguinte.

Esta geração era composta por surfistas cariocas como Daniel Friedmann, Ricardo Bocão, Otavio Pacheco, Rico de Souza e muitos outros. Alguns destes surfistas estavam muito à frente da galera de outros estados, fazendo a diferença e ganhando muitos campeonatos.

Hoje tenho o prazer de poder contar um pouco da historia de um destes gigantes, Daniel Friedmann!

Daniel José Friedmann, nascido em 27 de fevereiro de 1956 na cidade do Rio de Janeiro, começou sua vida no surfe muito cedo, com apenas 11 anos de idade. Com apoio da família (cito isto, pois naquela época não havia muitas famílias apoiando os filhos a surfar), Daniel surfava praticamente diariamente em Copacabana, caindo em frente ao posto Texaco.

Ele surfava de Planonda e logo em seguida começou com uma prancha de madeirite, mas sofreu um acidente e ficou um tempo só usando pranchas emprestadas de amigos. A sua primeira prancha de fibra de vidro foi uma São Conrado de duas longarinas. Deste momento em diante, rapidamente já se destacava como um surfista de personalidade, estilo próprio e um surfe acima da média para época.

Em 1972, aos 16 anos, Daniel, em uma viagem despretensiosa com amigos para Ubatuba, resolveu competir no Campeonato Brasileiro Júnior, terminando com um honroso terceiro lugar. Ele conta que aquele momento mudaria sua vida.

Competindo nas antigas em Nijiima, Japão.

“Logo após ter ficado em terceiro lugar decidi que queria competir direto”, diz. Foi a partir deste momento que ganhou confiança para seguir com seu objetivo nas competições. Logo em seguida, já de volta ao Rio, Friedmann venceu o importante Campeonato Carioca Píer. Aí ele começou a perceber que o “bichinho” do surfe já o havia mordido e não faltava talento para seguir competindo.

Em 1973 fez sua primeira viagem de surfe ao Peru, aonde aprimorou ainda mais seu estilo, voltando ao Brasil para uma sequência de bons resultados em diversos campeonatos.

Alguns eventos se passaram e, em 1976, já mais maduro e com um surfe polido, Daniel partiu para Saquarema em busca do titulo de campeão brasileiro. Este campeonato era o mais importante campeonato do Brasil na época, e também ficou marcado como o Woodstock tupiniquim, por contar com apresentações épicas de nomes como Raul Seixas e Rita Lee. Na verdade foi bem mais que um campeonato de surfe, um verdadeiro festival!

De um lado da final Daniel surfando impecavelmente e de outro, não menos, Paulo Proença. Nos últimos segundos, Daniel venceu a disputa e sagrou-se campeão brasileiro em Saquarema. Foi uma das finais mais incríveis que o surfe brasileiro já assistiu!

Naquele momento Daniel decidiu ser surfista profissional. Organizou-se a ponto de conseguir um contrato de patrocínio com boa compensação financeira da marca de cervejas Brahma, abrindo as portas para que outros ótimos surfistas da época também tivessem seus patrocínios. Isto fez com que o surfe começasse a se profissionalizar no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro.

No ano seguinte, em 1977, veio mais um resultado importantíssimo para ele e para o surfe brasileiro. Em outra final incrível, ele venceu o também carioca Pepê Lopes na final do celebrado Waimea 5000, realizado no Quebra-Mar, Barra da Tijuca. O evento fez parte do circuito mundial da IPS (International Professional Surfers),  título desejado por brasileiros, australianos, havaianos e californianos.

Backside polido em Sunset, North Shore de Oahu, Havaí.

Mas foi na Austrália, em 1980, que Daniel quebrou uma barreira importantíssima. Convidado a disputar o campeonato australiano em Stradbroke Island, ele venceu a final contra o australiano Dominic Zap Wibrow. Imagine um brasileiro vencer dentro da casa do povo mais competitivo do planeta e em um esporte no qual a supremacia aussie era total. Daniel venceu e convenceu, colocando o Brasil no mapa do surfe mundial definitivamente.

Colecionador de títulos, ele venceu mais de 20 campeonatos e fez mais de 30 finais.
Continuou a competir por muitos e muitos anos. Mais tarde, já na categoria Longboard, também abocanhou muitos títulos. Não tem como negar seu DNA competitivo.

Em uma vida totalmente dedicada ao surfe, Daniel começou a fazer pranchas muito cedo, em 1973, aos 17 anos. Com o tempo tornou-se um respeitado shaper. Sempre se dedicou e estudou a hidrodinâmica de suas pranchas, virando um profundo conhecedor da arte de shapear pranchas. Inovador, hoje em dia Daniel é considerado um dos melhores shapers de longboard do Brasil e também muito reconhecido internacionalmente. Fazendo pranchas há mais de 45 anos e em constante evolução.

Daniel continua influenciando gerações e gerações. Mas quem foram seus influenciadores? E os surfistas que ele mais admira? Em uma conversa enriquecedora, ele respondeu assim:

“Sem dúvidas no quesito estilo e atitude um dos meus surfistas favoritos foi o havaiano Gerry Lopez, ele inspirou uma geração inteira. Larry Bertlemann também, por toda modernidade e estilo. Entre surfistas brasileiros tive forte influência do Domingos, que tinha um talento fora da curva. Outro surfista pouco comentado nos dias de hoje, mas que surfava muito e me influenciou diretamente, foi Paulo Aragão”, contou Friedmann.

“Das gerações mais recentes, e que me fez realmente parar e prestar atenção foi Fabio Gouveia, sem dúvidas um dos maiores surfistas de todos os tempos do Brasil. Dono de um estilo lindo, com manobras incríveis. Sempre que está surfando e tenho a chance, paro tudo para assisti-lo”, revela o shaper.

Assim como no surfe mundial, no Brasil também há surfistas que podemos considerar acima da média e que influenciaram muitos. Daniel é um deles, principalmente surfando de backside. Ele revolucionou as batidas em uma época que não se imaginava (aqui no Brasil) algum surfista colocar a prancha na posição “meio-dia”.

O tempo parece não passar para Daniel, que continua surfando como um garoto. Podemos encontrá-lo surfando com o estilo e a classe de sempre diariamente no canto direito da Macumba, pista de testes para seu novos shapes e tecnologias. Daniel continua construindo um legado muito rico e importante. O surfe brasileiro e mundial agradece!

Kemel Addas Neto
Designer de moda, fotógrafo e artista plástico há mais de 35 anos, fez parte do primeiro staff da revista Fluir e atualmente é o curador de arte da The Board Trader Show. Surfa há mais de 40 anos, possui uma forte conexão com a Califórnia (EUA), com diversas temporadas na bagagem, e é dono do maior acervo de filmes de surfe do Brasil.