Relatos do North Shore

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Pipeline quebra com ondas prejudicadas pelo vento maral na manhã desta terça. Foto: João Guedes.

O engano e a difícil leitura do mar.

O Litoral Norte consiste, de fato, um mundo à parte. Não conheço nenhum outro lugar em que, por sete milhas, se pode encontrar um pico funcional, independente da condição da ondulação e do vento. Terral, aqui, pode ser maral acolá. Onda que fecha em monobloco pode, trezentos metros adiante, tornar-se uma longa parede à espera de uma cavada… Por isso, não me surpreendi em acordar cedo, por volta das cinco horas, e deparar-me com uma brisa quente rumo ao oceano e, trinta minutos depois, estar surpreso com a força do onshore (maral) em Pipeline.

A sabedoria de cada um ou a primeira vez que não há parâmetros.

Cheguei na área em que se concentram a loja oficial do evento e o enorme placar das baterias, por volta das sete horas. Olhei o mar com atenção à medida que poucas pessoas chegavam para confirmar o inevitável…

Não haveria competição, hoje. Logo, uma equipe de comunicação brasileira iniciou uma transmissão ao vivo, munidos das últimas notícias. Sento-me perto dos camaradas e ouço atentamente o relato do dia anterior. Em tese, discordamos entre nós apenas da configuração de um estado de guerra no Litoral Norte. Para mim, isso não parece, de fato, algo próximo da realidade. No mais, parece que vimos o mesmo campeonato, com as mesmas baterias e, sobretudo, com a mesma matriz de julgamento.

Aproveitei a chance para conversar com algumas pessoas, a maioria moradora das benditas sete milhas, a fim de entender quais seriam as possibilidades para o Pipe Masters ocorrer na quarta-feira. Descobri, ainda menino, que se você for simpático e educado com o outro, há uma enorme chance de a recíproca ser verdadeira. Por isso, não estimulo ninguém a andar em bandos, gritar na casa alheia e comemorar com entusiasmo juvenil uma onda surfada, ainda que ela seja a onda da sua vida… Educação e discrição são elementos fundamentais no Litoral Norte.

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Em clima de tranquilidade, havaianos declaram apoio a John John Florence. Foto: João Guedes.

Desse movimento, surgiram algumas conversas acaloradas sobre amanhã. Muitos afirmavam, de pés juntos, que Banzai quebraria. Eu, esperançoso de ver o terceiro recife em ação, concordava cegamente com o juízo alheio. Outros, categóricos, diziam não haver possibilidade de o campeonato acontecer, pois quarta-feira será o dia de Waimea. Com esses, confesso, também concordei plenamente, umas vez que possuo um desejo secreto de ver aquela onda, com shore break e tudo que ela tem direito. As justificativas encontradas pelos camaradas apontavam complexos mapas meteorológicos, intervalos nas bóias oceânicas e alguma coisa sobre o zodíaco…

O endereço onde isso aconteceu? Nos bancos de pedra, posicionados estrategicamente, à frente da casa da mãe de Florence. Rick, treinador de adapta surf e morador há décadas no Litoral Norte, confessou-me que presenciou, mais de uma vez, menino tomar café da manhã enquanto via Pipeline quebrar. Tomar café da manhã ali, naquela varanda? Sério? Vejam que não existe acidente na história. As coisas acontecem… Com os acontecimentos, devemos lidar com certa maturidade. Por isso, digo, com os dentes cerrados: Vamos para cima, Gabriel!

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Entrada da casa da mãe de John John. Foto: João Guedes.

Laniakea ou Haleiwa?

Queria surfar… Sem campeonato à vista, tinha de decidir onde cair. Dean e Anthony, dois senhores com cerca de sessenta anos, foram categóricos: rumo a Haleiwa! É incrível perceber que o conhecimento ao redor do surfe exige muita dedicação e, por que não, anos de experiência. As variáveis são tantas e, pasmem, extremamente complexas. É preciso equacionar o impossível: tamanho de prancha, forma da rabeta, escolha das quilhas, entendimento das marés e dos ventos, etc, etc… Não que despreze tal conhecimento, que, aliás, compartilho e admiro. Mas estou no Havaí e tenho certeza de que a 6´2 vai funcionar. De algum modo, ela vai funcionar…

Haleiwa estava com cerca de 1 metro. Abria para a direita e para a esquerda. Trinta cabeças na água entre jovens talentos, meninas com sangue nos olhos e uma boa parte de homens acima dos quarenta anos. E isso não significa que não soubessem surfar… Onda para todo mundo, uma boa conversa na arrebentação. Mais de uma vez, escutei o desagravo ao comportamento beligerante daquele bobo, ao gritos e bandeira havaiana em riste, ao lado do Gabriel. Aloha é um sentimento verdadeiro por essas bandas. Nós temos muito ainda para aprender com os temíveis havaianos do Litoral Norte sobre o comportamento necessário no lineup.

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Waimea pode acordar nesta quarta. Foto: Bruno Lemos / Sony Brasil.

Quem diria que encontraria pessoas educadas e solicitas, capazes de orientar-me em Haleiwa? Em Haleiwa… Isso, em todas as oportunidades em que estive no mar ou em terra, se comprovou verdade. Agora, se eles torcem pelo seu menino, parece-me justo. Se torcemos pelo nosso, outra coisa não seria…

Amanhã…

Sem campeonato… Agora, se quebrar Waimea… se quebrar Waimea, serei um homem feliz. Gostaria de ter duas décadas a menos… Se as tivesse, eu teria, certamente, mudado para cá… Aliás, camaradas de 20 poucos anos, o paraíso, ainda que não pareça haver muitas formas de fazer dinheiro, é aqui… Venham antes que a coluna não permita a vocês experimentar a onda da baía, com toda a majestade que ela merece.