Peter Townend

Levante chinês

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Delegação da China em visita à Wavegarden Cove: para Peter Townend, piscina do País Basco é melhor do que a de Kelly Slater para os treinamentos. Foto: Reprodução.

 

Na última semana, o jornalista Nick Carroll, do site Coastalwatch, conversou com o australiano Peter Townend a respeito do futuro da China no surfe.

 

A conversa com “PT”, campeão mundial de surfe em 1976 (pela antiga IPS), foi motivada pela recente visita da delegação chinesa à piscina de ondas Wavegarden Cove, no País Basco.

 

Peter Townend é o treinador da seleção chinesa e tem a missão de preparar uma equipe competitiva para disputar as Olimpíadas de 2020, em Tóquio, Japão.

 

Mas a tarefa não será fácil: apesar do extenso litoral e uma população de mais de 1 bilhão de habitantes, a China ainda engatinha no surfe.

 

Confira abaixo alguns trechos da conversa entre Carroll e Townend.

 

“Piscinas de onda na China?”, diz Peter Townend. “É questão de tempo e de qual modelo será o escolhido”, argumenta.

 

A China é o país com o maior potencial para o surfe no mundo. Mas um lugar onde quase ninguém surfa.

 

Voltando à década de 80, quando a geração dos Bronzed Aussies foi treinar o time norte-americano da NSSA (National Scholastic Surfing Association), agora uma situação semelhante acontece na China.

 

 

Mas há grandes diferenças. A NSSA tinha por trás um século de cultura de surfe. Sementes já implantadas com Tom Curren, Kim Mearig, Chris Frohoff, entre outros. Em comparação, a pequena cultura de surfe da China não tem nem uma década de idade.

“Tudo o que eles aprendem sobre o surfe vem de vídeos”, conta PT. “Todos tendem a forçar o pé da frente, como se estivessem andando de skate. Consegui colocar um peso no tornozelo do pé de trás nos treinamentos, apenas para lembrá-los”.

Temos uma imagem da China como um país enorme, confuso, crowdeado e poluído, mas a ilha de Hainan é exatamente o oposto disso. De acordo com PT, lembra Fiji. “Há bancos de areia, como a Gold Coast, mas ninguém por perto. Você anda por uma selva e dá de cara com uma praia paradisíaca – e vazia”.  

Ele abre seu computador e me mostra um clipe com uma esquerda limpa. A equipe da China tenta pegar as ondas, aguerridos, mas sem muita habilidade. Há um garoto de 14 anos chamado Alex, goofy footer, que consegue decolar e manobras de linha à la Wilko, mas parece estar fazendo força para surfar. 

 

Também há um jovem de oito anos talentoso, que PT calcula ter potencial para as Olimpíadas de 2024.

 

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Chineses durante peregrinação à Califórnia em setembro: a meca do surfe mundial. Foto: Divulgação.

 

Mas aonde eles conseguem suas pranchas? PT aponta para outra ironia. Enquanto a metade das pranchas de surfe no mundo são feitas na China, não há uma cadeia de distribuição, então eles não conseguem ter acesso.

 

A maioria das pranchas no vídeo da Wavegarden veio da viagem da equipe à Califórnia em setembro. A autoridade do governo que administra o programa de surfe chinês fez um acordo de compra em massa, pensando que poderia obter 50 pranchas exatamente iguais. “Eles não entenderam a ideia de que cada surfista é um indivíduo, com necessidades individuais de prancha e você não pode querer que todos surfem com modelos 5’11”, diz PT. “O governo luta contra o individualismo”.

Mas o governo chinês tem planos ambiciosos, e todos eles vão em direção às Olimpíadas. O programa nacional vai se espalhar além de Hainan e criar equipes de surfe nas cinco províncias do continente, recrutando até atletas promissores de outros esportes. Isso significa que mais treinadores serão necessários? PT diz que sim: “Haverá oportunidades para os caras viverem na China e ganharem um bom dinheiro”.

 

E sim, as piscinas são uma questão de tempo, ou de escolha. PT não tem certeza qual modelo ganhará a corrida, mas favorece o Wavegarden Cove sobre a de Kelly Slater: “A piscina do Kelly pode ser muito avançada para esta equipe. Além disso, o Cove é mais curto e mais treinável”, opina.

 

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Ilha de Hainan, na China, possui ondas perfeitas e solitárias. Foto: WSL / Bennett.

 

Enquanto isso, PT passa metade do ano em Hainan ou levando a equipe chinesa para algum canto do globo. O objetivo é pegar a experiência que eles não conseguem em casa. Em janeiro de 2018, eles irão à Austrália passar um mês em New South Wales, onde vão surfar e participar de algumas etapa do QS 1000.

 

Naturalmente, PT fala sobre as possibilidades de o surfe florescer na China. Ele ressalta que enquanto 400 milhões de chineses vivem perto da praia, muitos nunca foram a uma. A pele bronzeada pelo sol sempre foi considerado como um sinal da população camponesa.

 

Mas, à medida que os jovens chineses se urbanizam e retomam a modernidade, eles podem deixar essa relutância de lado. “Ainda não há o lifestyle de praia”, diz ele. “Quando isso acontecer, alguém vai fazer uma fortuna”.

Mas parece que PT não está realmente pensando em fortunas para si mesmo. Ele tem 63 anos de idade e está mais interessado em plantar a semente do surfe na China do que ir muito além disso. “É um desafio. Para nós, a cultura do surfe já existe há 100 anos. Mas quando você está na China, você se sente como Duke Kahanamoku”, finaliza.