Criador e criatura

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Surfistas e shapers são confidentes, e alinhando comunicação e expertise, superam os limites do surfe criando modelos de pranchas que nos encantam. Em 1998, Neco (Percy Padaratz Jr.) encomendou um quiver de pranchas com Alemão (Claudio Hennek), mas pediu uma em especial e diferente do que os competidores surfavam (designs que imperavam na época).

Alemão criou uma prancha fácil para manobrar em ondas fracas / pequenas e rápida nas conexões dos beach breaks ao redor do mundo, e assim nasceu a Hennek 5’11 swallow tail triquilhas com desenho / arte nas bordas em verde degradée para amarelo e filetes azuis, branca ao centro.

A prancha chegou a Florianópolis às vésperas de uma etapa do WQS na Joaquina. A criatura venceu e convenceu o criador, pois sabiam o que estavam propondo ao mundo. Nesse mesmo ano, Neco retirou-se do Tour para tratar de problemas estomacais e alinhamento familiar em busca de equilíbrio psicológico. O público não entendia como alguém que estava vencendo precisava de tempo para si.

Autenticidade é o que trouxe o surfe ao patamar de negócios dos dias atuais. Sejam os simples artesões do surf ou os industriais que estão sempre investindo nos surfonautas, para traduzir ao público consumidor a mensagem de que sempre haverá uma onda a ser alcançada.

Cheguei a Los Angeles, agora já mais escolado e me sentindo cidadão do mundo, sem pranchas para arrastar, mas com os cartões de crédito que o Tio Sam adora. Peguei a 405 Freeway (rodovia interestadual californiana) sentido Sul, e logo estava na surf city de Huntington para a etapa do WCT 1999, assistindo a Neco Padaratz e sua prancha mágica. De volta ao showtime, digno de Hollywood. Atitude ele interpreta como nenhum outro, um ser irreverente dentro e fora d’água. Ele é uma ação de marketing e o verão o elegeu.

Cabelos descoloridos quimicamente e piercing verde fluor no lábio inferior. Era o que a América queria para ter mais um verão inesquecível. Neco venceu e ainda destruiu as ondas, abrindo novas portas comportamentais de competição e uso de design não convencional para a época.

No Brasil, Neco e sua prancha – em 1999 – venceram o WQS no Ceará e na Praia Mole. O total acumulado em premiações e pontos equivale ao tempo dedicado dos personagens ao surfe de competição, pois não basta fazer pranchas boas, você tem de testá-las com surfistas que inspiram e traduzam a evolução de designs e conceitos.

Para finalizar, consultei Alemão para lembrar mais detalhes da prancha utilizada por Neco naquela temporada. “Eu me recordo que fiz pensando em ondas muito pequenas e fracas da Joaquina, pois foi para um campeonato lá que eu levei e entreguei a prancha. Lembro que ele estreou sem experimentar antes da bateria, porque ficou amarradão no conceito dela e acho que até ganhou o campeonato. Era bem reta e pelo visual dela, quando terminei de shapear, o Joca (Secco) até brincou comigo, falando ‘Nossa, Alemão, que toco essa prancha!’. A partir dessa que ele usou em vários campeonatos, fizemos outras, mas ela realmente foi a que trouxe mais frutos”, disse Alemão.